sexta-feira, 17 de junho de 2016

SER CRISTÃO NOS TRÊS PRIMEIROS SÉCULOS:

 
Liturgia e culto, batismo, penitência e eucaristia.
Por: Frei Jonas Matheus Sousa da Silva. OFMcap
 

 Aborda-se através desta pesquisa acerca da liturgia da Igreja na Antiguidade, especificamente nos três primeiros séculos de nossa era, o desenvolvimento da Iniciação Cristã, da Penitência e da Eucaristia.
 Esta tem por fontes além da Sagrada Escritura e dos escritos dos Santos Padres, obras de historiadores eclesiásticos da modernidade.
 
 1 SER CRISTÃO NOS TRÊS PRIMEIROS SÉCULOS
 
 Conforme Jean Comby (1993, p.50), ser cristão consiste em acolher o Evangelho de Jesus, deixando-se moldar por este. Disto se interpreta que, os cristãos dos primeiros três séculos de nossa era, eram profundamente ligados ao anúncio do Evangelho.
 Sobre este anúncio, sabe-se através do Novo Testamento que está baseado no Querigma anunciado pelos apóstolos de Jesus (Cf.: Atos 3, 13 – 15; 10, 37 – 43; I Coríntios 15, 3 – 4. 11. 20 – 24), e consiste na proclamação e no testemunho no núcleo da fé cristã. Sendo este: Jesus de Nazaré é o Cristo e Filho de Deus, Ele nos salvou do pecado ao morrer crucificado, porém ressuscitou ao terceiro dia e está glorioso à direita do Pai. A fé nasce da acolhida do Querigma anunciado. Como escreve São Paulo: “se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10, 9); e “a fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo” (Romanos 10, 17). (BÍBLIA, 2002, p. 1983 – 1984).
 Com a acolhida da fé, nos tempos apostólicos, os cristãos recebiam o batismo e se integravam na comunidade dos discípulos de Cristo. Posteriormente, nos séculos II e III, antes de receber os sacramentos da Iniciação Cristã (Batismo, Crisma e Eucaristia), os recém-convertidos passavam pelo período de catequese mistagógica e prova denominado catecumenato, que chegou a durar três anos.
 
 
 2 DESENVOLVIMENTO DA LITURGIA E DO CULTO
 
 Baseando-se na história da liturgia, conforme Matias Augé (1998, p. 11 – 31), conhece-se o desenvolvimento do culto cristão nos três primeiros séculos. Assim, fiando-se em Augé, alcança-se os seguintes dados.
 A iniciar de Jesus Cristo. Compreende-se que Ele observou as práticas cultuais do Judaísmo, porém, permaneceu fiel a uma espiritualidade profética que conferia a primazia ao espírito ao invés do rito. Deste modo Cristo introduzia o culto ao Pai “em espírito e em verdade” (João 4, 24). Este culto transcende o templo físico dos judeus, pois “Cristo é o templo e mais do que o templo; é o eterno e sumo sacerdote; é o liturgo dos cristãos por excelência, é o único mediador da nova e eterna aliança” (AUGÉ, 1998, p.21).
 O culto da Igreja no tempo dos apóstolos, inspirou-se na prática de Jesus. Deste modo, os discípulos subiam ao Templo para orar, reuniam-se em suas casas para a Fração do Pão, no primeiro dia da semana, conforme os relatos dos Atos dos Apóstolos (Cf.: Atos 2,42; 7,11).
 Nos escritos patrísticos dos séculos II e III, aparecem descrições da liturgia da Igreja. Disto, e também conforme Jean Comby (1993, p. 51 – 54) e Augé (1998), sabe-se que o advento do martírio de cristãos por conta das perseguições promovidas por judeus e pelo Império Romano, as tumbas dos mártires receberam veneração especial, sobretudo nos dias de aniversários das suas mortes, tornando-se espaço litúrgico para a celebração da eucaristia. Os batizados eram realizados em piscinas anexas as casas que os cristãos cediam para a celebração dos sagrados mistérios.
 Santo Inácio de Antioquia (+107) ressaltou em suas cartas, a Igreja reunida em torno do bispo, ladeado por seu senado presbiteral e por seus diáconos, para a celebração dos divinos mistérios. Assim este santo escreveu aos esmirniotas:
 
 "Segui ao bispo, vós todos, como Jesus Cristo ao Pai. Segui o presbitério como aos apóstolos. Respeitai aos diáconos como aos preceitos de Deus. Ninguém ouse fazer sem o bispo coisa alguma concernente à Igreja. Como válida só se tenha a eucaristia celebrada pelo bispo ou por um delegado seu. A comunidade se reúne onde estiver o bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja Católica" (INÁCIO DE ANTIOQUIA apud GOMES, 1979, p. 43).
 
 São Justino de Roma (+165), em sua I Apologia, legou-nos a descrição da celebração eucarística no II século, ao passo que Santo Hipólito de Roma (160 – 235), deixou-nos, em sua Tradição Apostólica, as descrições das celebrações litúrgicas e da catequese na Igreja de Roma, ao longo do III século.
 
 2.1 O sacramento do Batismo
 
 De acordo com Peter Stockmier e J. B. Bauer em História da Igreja Católica (LENZENWEGER et al, 2006, p. 43 – 44), no primeiro século o batismo fora principalmente compreendido como uma participação no Mistério Pascal de Jesus Cristo. Segundo Comby (1993, p.54), “o ritual do Batismo se refere, em primeiro lugar, aos adultos, mas as crianças podem ser batizadas em qualquer idade, juntamente com os seus pais ou em qualquer idade quando esses já são cristãos”.
Com o ingresso de muitas pessoas nas comunidades cristãs, passou-se a tomar medidas mais cautelosas antes de conferir o Batismo a quem o pedisse. São Justino e Hipólito de Roma indicam em seus escritos essa preparação que constituía o catecumenato.
 O candidato após ter a vida examinada, uma vez aprovado, tornava-se catecúmeno com a recepção do sinal da cruz. Em seguida, era catequizado durante três anos por um instrutor, podendo participar na Eucaristia somente da parte que hoje se conhece por “Liturgia da Palavra”. Aproximando-se da conclusão do período do catecumenato, o candidato passava por um novo exame, em seguida recebia o nome de “eleito” e se preparava de um modo mais intenso pela escuta das pregações baseadas na Sagrada Escritura, pela prática do jejum e da oração e pela recepção dos exorcismos.
 Segundo Hipólito de Roma (2004, p. 60), “se um catecúmeno for aprisionado por causa do nome do Senhor, não se angustie: se lhe for infligida violência e morte antes de seus pecados terem sido perdoados será justificado – pois terá recebido o Batismo no seu sangue”.
O rito do Batismo era administrado preferencialmente na Vigília Pascal, de modo solene. Presidido pelo bispo que, após instruir, pronunciava um exorcismo sobre os eleitos, assinalando-os com a cruz. Após a bênção dos óleos, os eleitos renunciavam ao demônio, voltados para o Ocidente e eram ungidos com o óleo do exorcismo.
 
 "Depois os batizandos, tendo se despojado de suas vestes, eram conduzidos ao batistério e interrogados sobre sua fé em Deus Pai, em Jesus Cristo e no Espírito Santo. A cada pergunta o batizando dizia: “creio”, sendo então imergidos ou aspergidos pelo bispo. O ato do batismo era concluído com uma unção de ação de graças. Após os batizados terem passado do batistério para a igreja, seguia-se a consignatio pelo bispo, a comunicação do Espírito mediante a imposição das mãos e a unção. A liturgia do batismo se encerrava com uma eucaristia batismal" (STOCKMIER; BAUER apud LENZENWEGER et al, 2006, p. 43)
 
 Por meio desta descrição histórica, sabe-se que os sacramentos da Iniciação cristã, Batismo, Crisma e Eucaristia, eram administrados aos eleitos numa mesma celebração, situada na véspera do Domingo de páscoa. Também, nota-se que a unção com o santo crisma e a invocação do dom do Espírito Santo, esteve extremamente vinculada ao sacramento do Batismo, sem um rito separado para a Crismação.
 
 2.2 O sacramento da Penitência
 
 Jesus Cristo conferiu aos apóstolos o poder de perdoar os pecados (Cf.: João 20, 19 – 23). Segundo Comby (1993, p. 54), “no Novo Testamento, é fundamentalmente pelo Batismo que Deus concede o perdão dos pecados”, assim, o batizado não deveria mais pecar de modo grave, inclusive, devendo confessar suas faltas leves na reunião da comunidade.
 Conforme Matias Augé (1998, p.190 – 192), na Igreja antiga, só era admitido uma penitência para cada cristão em sua vida, em analogia a unicidade do Batismo. Este princípio é afirmado por Hermas (+160), na obra “O Pastor” (1995, p. 198): “Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem”.
De acordo com Hipólito de Roma em sua obra “Tradição Apostólica”, a penitência dependia exclusivamente do bispo e era pública. Este costume é esclarecido por Matias Augé (1998, p.191 – 192): “o processo penitencial era público, não, porém, a confissão das culpas. A publicidade se origina do caráter essencialmente comunitário e eclesial da penitência antiga”.
A condição do penitente era considerada como um estado de vida caracterizado por uma série de proibições quanto ao matrimonio a aos direitos civis. O penitente permanecia sujeito a estas proibições ainda depois de sua reconciliação, até a sua morte.
 
 
 
 
 2.3 O sacramento da Eucaristia
 
 Os Atos dos Apóstolos registraram que os cristãos se reuniam nas casas, no primeiro dia da semana para a celebração da eucaristia ou Fração do pão (Cf.: Atos 2, 42; 7, 11; 27, 35).
 São Justino de Roma, na sua I Apologia, descreveu a estrutura da eucaristia, no segundo século. Neste contexto já estavam presentes na celebração eucarística, a leitura das Sagradas Escrituras, a homilia do presidente da celebração, a oração universal, o ofertório dos dons, a oração eucarística e a comunhão. Isto, no primeiro dia da semana, chamado “dia do sol”. Escreveu, São Justino (1995, p.83 – 84): “celebramos essa reunião no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus transformou as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos”.
Hipólito de Roma, por sua vez, transcreveu uma oração eucarística do terceiro século, ressaltando a presidência do bispo e a assistência dos diáconos. Nesta oração eucarística da Igreja de Roma, constam: o memorial da obra da redenção, as palavras de Jesus na instituição da eucaristia, a epiclese sobre a “oblação da Santa Igreja”, a oração por toda a Igreja com a doxologia final.
 Hipólito, porém, acrescenta que esta não é uma forma fixa de oração eucarística, pois fica a critério do bispo e de sua capacidade de rezar uma Oração eucarística mais longa ou curta. Sendo critério obrigatório, apenas que esta oração seja caracterizada por uma ortodoxia salutar.
 
 
 CONCLUSÃO
 
 Nesta pesquisa acerca da vida litúrgica da Igreja nos três primeiros séculos de nossa era, pode-se fiar, além dos historiadores, naquelas fontes mais autorizadas pela divina revelação ou pela autoridade patrística, que são as indicações do Novo Testamento e as citações de Inácio de Antioquia, Hermas, Justino e Hipólito de Roma.
 Conhece-se que o culto cristão, segue o exemplo de oração vivenciado por Jesus, na tradição judaica, porém como culto espiritual, mais que ritual. A comunidade se reunia nas casas para a eucaristia no primeiro dia da semana, dia da ressurreição do Senhor; e, posteriormente na data de martírio sobre a tumba dos mártires.
 Com o ingresso de muitos no cristianismo, deu-se início ao catecumenato para a recepção dos sacramentos da iniciação cristã. A Penitência fora admitida uma única vez após o batismo e a eucaristia bem como a iniciação cristã fora tomando uma estrutura mais organizada até o século III, sendo marcados pelo caráter mistagógico nas suas liturgias.
 
 REFERENCIAS
 
 AUGÉ, Matias. Liturgia: história, celebração, teologia e espiritualidade. 2.ed. São Paulo: Ave Maria, 1992.
 BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
 COMBY, Jean. Para ler a História da Igreja I: das origens ao século XV. 2.ed. São Paulo: Loyola, 1996.
 GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos Santos Padres: páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos.2.ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
 HERMAS. O Pastor. In: PADRES APOSTÓLICOS. São Paulo: Paulus, 1995. (Col.: Patrística).
 HIPÓLITO de Roma. Tradição Apostólica: liturgia e catequese em Roma no século III. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
 JUSTINO de Roma. I e II Antologias; Diálogo com Trifão. São Paulo: Paulus, 1995. (Col.: Patrística).
 LEZENWEGER, Josef. Et al . História da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2006.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

O RATO DO CONVENTO


 
 

 No Centenário convento de Belém, habitou um gordo rato, na cozinha.  Especificamente, no fogão doméstico.

 O roedor logo adaptou-se a escalar as marmóreas escadas e percorrer as penumbras dos claustros Capuchinhos, nos horários de maior silêncio.

 Nos momentos nos quais os frades estavam mais recolhidos, por força das suas funções cultuais, laborais ou estudantes. No absoluto silêncio monástico, sempre em tempos pontuais, o rato saia a realizar sua jornada; não cessava de atacar a despensa, roubando porções dos cereais, que se tornavam infectos.

 Tais vestígios, do pequeno ladrão, incomodavam e traziam despesas aos barbudos franciscanos. Desse modo, os frades decidiram se livrar do malquisto inquilino.

 Numa madrugada de quinta-feira, às 5:00 da manhã, quando Frei Michel se desdobrava na cozinha, preparando o café da manhã aos irmãos; exatamente, no momento em que punha o pó do café na borbulhante água do bule; foi, praticamente, atropelado pelo rato, que ao se deparar com aquele ser humano em hora tão inusitada, assustou-se e se precipitou para o interior do fogão. Naquela manhã, os religiosos não foram despertados pelo tradicional toque do campanário, porém pelos gritos assustados de Frei Michel, que de tão branco de susto, pareceu beirar a um ataque cardíaco.

 Frei Michel, recomposto, explicou o fato aos correligionários. Ao menos o roedor denunciou o seu esconderijo.

 Frei Pou organizou vários momentos para encurralar e eliminar o animal; sempre armando emboscadas para o pequeno mamífero com ajuda dos camaradas, Freis Henry, Renault e Pavlov.  Muitas vezes tentaram, outrossim o gordo roedor sempre lhes burlava o esquema, fugindo por entre seus pés, não obstante batessem na parede do forno, ou roubando-lhes as iscas das inúmeras ratoeiras que sempre amanheciam sem efeito.

 Os frades tentaram muitas vezes, mas nunca conseguiram, seja por força dos seus impreteríveis horários, ou mesmo pelo influxo da piedade franciscana para com a natureza criada.

 Fato é, que após três anos nessas tentativas malogradas, em certa manhã de quaresma, os frades se depararam com cadáver do roedor já ostentando pelos grisalhos.

O gordo rato, de nutrido que era, findou por morrer de velho; e a paz retornou à cozinha do convento.
Frei Jonas Silva