sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

VOCAÇÃO CRISTÃ: CHAMADO AO DISCIPULADO









1 INTRODUÇÃO

 “Foi pelo sangue de Cristo que fomos remidos, foi por sua morte que fomos resgatados da morte; estávamos caídos, e, pela sua humildade, fomos reerguidos da nossa prostração. Mas devemos também contribuir com nossa prostração. Mas devemos também contribuir com nossa pequena parte para ajudar os membros, pois nos tornamos membros dele: Ele é a cabeça e nós somos o corpo”.
Santo Agostinho de Hipona.


A fé do discípulo de Jesus, seguidor do mestre, nasce do kerigma, que consiste em transmitir o evangelho que o Filho de Deus, que se fez homem e nos salvou do pecado e da morte, no amor divino, ao deixar-se crucificar, dando sua vida pelos seus. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem, é o “crucificado que ressuscitou e está na glória divina com o mesmo poder do Pai, pelo “Vínculo de amor”: o Espírito Santo.
“Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem o sabeis. Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pela mão dos ímpios. Mas Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias do Hades, pois não era possível que ele fosse retido em seu poder”. (ATOS 2,22-24).
O Filho chamou pessoas humanas para o seguirem, a fim de viverem neste mundo o mandamento da caridade, abnegando-se, seguindo-o como Mestre e Senhor, mesmo atravessando a “porta estreita-cruz”, sempre no amor verdadeiro, até compartilhar com ele o mistério da glória. Como diz Jesus: “Aquele que não toma sua cruz e não me segue não é digno de mim. Aquele que acha sua vida, a perderá, mas quem perde sua vida por mim, a achará”. (MATEUS 10,38-39).
De fato, é pela fé que o discípulo de Jesus Cristo, chamado “cristão” desde o ministério do apóstolo Paulo, em Antioquia (cf. Atos 11,26), é chamado a entregar sua vida a Deus pela opção pelo Amor. Este amor que surge como assentimento da fé pessoal e eclesial à Trindade Santíssima e que, por graça, dá-se a conhecer, revelando-se à razão humana. “Em auxílio da razão, que procura a compreensão do mistério, vêm também os sinais presentes na Revelação. Estes servem para conduzir mais longe a busca da verdade e permitir que a mente passe autonomamente a investigar inclusive dentro do mistério”. (JOÃO PAULO II. n.13, 2009, p.22)
Porém, a clareza da fé à razão, por ultrapassá-la, não dispensa o cristão da “noite escura da alma”, quando, esperando no Amor, pode vencer a angústia da dúvida, dando o salto no escuro, aderindo de maneira pura ao Senhor.
 “A dialética da fé é a mais sutil e notável de todas; tem uma sublimidade de que posso ter uma ideia, mas não mais que isso. Posso muito bem executar o salto de trampolim no infinito [...], amar a Deus sem fé é refletir-se sobre si mesmo, mas amar a Deus com fé é refletir-se no próprio Deus”. (KIERKEGAARD, 1979, p.129).
O amor incondicional do Cristão proporciona a entrega pelo Reino de Deus, que é etapa decisiva na conversão, a martiria, que significa martírio e testemunho.

2 A FONTE BATISMAL

O próprio crucificado-ressuscitado confiou à sua Igreja a missão de evangelizar todos os povos e de conferir o sacramento do Batismo, proporcionando-lhes as graças da remissão dos pecados, da filiação divina em Cristo, pela incorporação no seu corpo místico, a Igreja.
“O Batismo perdoa o pecado original, todos os pecados pessoais e as penas devidas ao pecado; faz participar da vida divina trinitária mediante a graça santificante, a graça da justificação que incorpora a Cristo e à sua Igreja; faz participar do sacerdócio de Cristo e constitui o fundamento da comunhão com todos os cristãos; propicia as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo. O batizado pertence para sempre a Cristo: é marcado, com efeito, com o selo indelével de Cristo (caráter)”.(COMPÊNDIO.q.263, 2005, p.91)
Pelo Batismo, o cristão recebe a vocação para comprometer-se vitalmente com Jesus, na Igreja, e por tal adesão pessoal, que, em nosso caso pastoral, manifesta-se no sacramento da crisma, compromete-se a viver os preceitos do Senhor, em seu corpo eclesial e no mundo, conforme ensina o Concílio Vaticano II (1962-1965): “As ALEGRIAS E AS ESPERANÇAS, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo”. (GAUDIUM ET SPES. n.1, 1969, p.143).
Pelas virtudes teologais - fé, esperança e caridade (= amor) -, o autêntico cristão faz a diferença no mundo, conforme as palavras expressas na antiga Carta a Diogneto (Apud FOLCH GOMES, 1979, p.111), sobre os cristãos: “[...] o que é a alma para o corpo, são os cristãos para o mundo: como por todos os membros do corpo está difundida a alma, assim os cristãos por todas as cidades do universo. [...] os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo’.
No Batismo, o novo cristão morreu para o pecado e para o egoísmo, ressuscitando sacramentalmente para a glória de pertencer a Cristo, tendo o amor por sua lei, subindo à cruz cotidianamente, renunciando a seus instintos egoístas pelas virtudes e alargando seus horizontes pela graça divina.

3 A FIDELIDADE CRISTÃ

Salvo, o povo cristão está neste mundo fugaz, não pertencendo a ele; mas está profeticamente, para testemunhar o evangelho, na fidelidade ao Senhor, participando da Igreja, assembleia dos chamados, reinando com Cristo pelo serviço caritativo ao próximo, sobretudo aos marginalizados do sistema social. A vocação cristã se firma na fidelidade, que expressa pertença eclesial, pois: “A perfeita pertença de um homem à Igreja ocorre [...], quando o seu relacionamento com o Senhor Jesus no Espírito Santo é sem lacunas e sem frouxidão, de modo que a ‘restauração’ e a renovação do seu ser podem-se dizer completadas”. (BIFFI, 2009, p. 107).
A fidelidade consiste numa ascese diária, oferecendo-se cotidianamente a Deus na oração e intercedendo pelos demais membros do corpo eclesial e para o bem da humanidade, participando, assim, do sacerdócio de Cristo. Para tanto, faz-se necessária a escuta ao Mestre que nos chama eternamente, e darmos, no aqui, enquanto existimos no mundo, presos por nosso corpo ao espaço e ao tempo, a nossa resposta-adesão pessoal e eclesial. Resposta essa que deve ser renovada pelo livre arbítrio do discípulo, no agora, até o encontro definitivo com o Senhor, na eternidade.

 4 O TESTEMUNHO FRANCISCANO

Em São Francisco de Assis, encontramos sólido exemplo que nos anima a viver fielmente o Evangelho, correspondendo a esta vocação que recebemos no Batismo; pois na operação do Espírito do Senhor, o “Pobrezinho de Assis”, cotidianamente, anelava por viver mais perfeitamente o Evangelho, constituindo-o como regra viva para seus frades. “A regra e a vida destes irmãos é esta: viver em obediência, em castidade e sem nada de próprio e seguir a doutrina e os vestígios de Nosso Senhor Jesus Cristo”. (REGRA NÃO BULADA. n.1, 1999, p.107).
Assim, a espiritualidade franciscana arraiga-se no Evangelho vivenciado, para honrar a humanidade do Filho de Deus, encontrando alegria em viver a “Lei de Cristo”, como resposta vocacional.
“Cristo é o caminho e a porta. Cristo é a escada e o veículo, o propiciatório colocado sobre a arca de Deus (cf.Ex 26,34) e o mistério desde sempre escondido (Ef 3,9). Quem olha para este propiciatório, com o rosto totalmente voltado para ele, contemplando-o suspenso na cruz, com fé, esperança e caridade, com devoção, admiração e alegria, com veneração, louvor e júbilo, realiza com ele a páscoa, Isto é, a passagem”. (SÃO BOAVENTURA Apud LITURGIA DAS HORAS, 2000, p.1425).
Pois ser cristão é, diariamente, acolher a moção do Espírito Santo, vivendo a caridade como vocação, relacionando-se, na Igreja, com as irmãs, os irmãos e com o próprio Senhor, que é Pessoa viva e presente no meio de nós.

5 CONCLUSÃO

Por tudo isso, somos cientes que a vocação cristã consiste em seguir Jesus Cristo, Deus e Homem, pessoa viva presente na sua Igreja, e aderirmos na fé, esperança e amor ao Seu evangelho, vivendo a Lei da caridade. E mais, sendo cotidianamente fiel ao seu evangelho, manifestando nosso assentimento cotidiano à vocação batismal, que é ser profeta, rei e sacerdote.



REFERÊNCIAS
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
BIFFI, Giacomo. Para amar a Igreja. Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará/ O Lutador, 2009.
COMPÊNDIO DO CATECISMO da Igreja Católica. São Paulo: Paulus/Loyola, 2005.
COMPÊNDIO DO VATICANO II: Constituições, decretos e declarações. 13.ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1969.
 GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos santos padres: Páginas seletas dos antigos escritores eclesiásticos. 2.ed. são Paulo: Paulinas, 1979.
FONTES Franciscanas I: Francisco de Assis – Escritos. Santo André-SP: Editora Mensageiro de Santo Antônio, 1999.
JOÃO PAULO II, Papa. Fides et Ratio: Carta Encíclica. 12. Ed. São Paulo: Paulinas, 2009.
LITURGIA das horas: Segundo o Rito Romano.v.III.São Paulo: Vozes/ Paulinas/ Paulus/ Ave-Maria, 2000.
KIERKEGAARD. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Col. Os Pensadores).


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