sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

NO OLHAR, O ENCONTRO ORIGINÁRIO








Elabora-se uma hermenêutica filosófica do poema Teus olhos, de Luciane Oliveira Moraes. Embasa-se, para tanto, nos pensamentos de Merleau-Ponty, Jonas, Heidegger, Buber, e Rahner, entre outras fontes; para refletir o conceito de Encontro originário, vivenciado pela poetisa, abrindo a interpretação para o interpessoal-encontro-inefável, que manifesta o ser-com-os-outros-no-mundo, fadado ao devir, porém fundado, assim como todas as coisas, em Deus – o “Tu eterno”, que mesmo inominável, manifesta-se ao ser humano.


Palavras-chave: Hermenêutica filosófica. Poema. Encontro originário. Devir. Deus.

1 INTRODUÇÃO

Construindo uma hermenêutica do poema “Teus olhos”, de Luciane Oliveira Moraes, texto disponível na internet, o presente artigo coloca em relevo a temática do encontro interpessoal, que parte do olhar enquanto vivência do inefável, momento do encontro e da compreensão; que acontece no devir de ser-com-o-outro, enlaçando dois mundos, nos quais o Tu-humano que advêm ao encontro do Eu, porta em si o signo da presença do “Tu eterno”, do “Sumo outro”, que dá fundamento a todos os encontros originários e garante, para a pessoa humana, a felicidade perene. Certamente, o encontro originário, experimentado pela poetisa, no seu fim, impulsionou-a para compor e escrever o poema em questão, colocando aquele encontro em-obra-de-verdade.
Embasa-se esta atividade hermenêutica de “Teus olhos”, não tanto enfatizando a biografia de Luciane Oliveira que, na fonte virtual não oferece muitas informações sobre si, porém detém-se no texto poético e nos enfoques filosóficos e teológicos, os quais pautam os subtemas que compõem o desenvolvimento desta, e são: Merleau-Ponty, Hans Jonas, Martin Heidegger, Martin Buber, Karl Rahner, entre outros que preservam sua importância na estrutura vigente.
Fundamentando-se em consideráveis pensamentos filosóficos e teológicos, pode-se entrar na iluminação de “Teus olhos” que convoca a presença do ser humano na sua dignidade de portador das centelhas de Deus. Encontrar-se com o outro ser humano que se faz próximo é compreender que a existência possui um fundamento eterno.
Deste modo, o presente artigo está subdividido na seguinte estrutura temática:
O poema “Teus olhos”;
Os olhos;
Pôr-em-obra-da-verdade;
Hermenêutica do encontro;
e O advento do “Tu eterno”.

2 O POEMA “TEUS OLHOS”

A fim de se trabalhar os pensamentos filosóficos de Heidegger e Buber, entre outros autores consultados; evidencia-se como a obra de arte escolhida - desde que o presente artigo almeja enfatizar conotações, estética e hermenêutica, em relação ao ato de olhar-o-outro no encontro - o poema “Teus olhos” , publicado em meio eletrônico: <http://www.webartigosos.com>, em 22 de julho de 2011, assinado por Luciane Moraes que, além deste poema, divulgou outros escritos seus, na citada página virtual, intitulados: Mistério subentendido; Vida; e Sobre equívocos, narcisos e imediatismos.
Abaixo, cita-se na integra o texto poético chamado “Teus olhos”:
“Ah! Teus olhos... /Teus olhos são o puro reflexo da ascensão, /São o reflexo da glória. /São o reflexo de alguém que tudo pode /E que tudo vê. /São olhos soberanos /E eu, sou apenas mais uma eterna subalterna desse teu olhar... /Teus olhos são a água da vida /Que convida a humanidade a banhar-se. /Teus olhos são profundos, /São puras bênçãos do grande Rei. /Teus olhos são dádivas, /Minha dívida benigna. /Teus olhos me dão um prazer indescritível, /Daria tudo para admirá-los por toda a eternidade. /Ah! Teus olhos... /São divinos! /Chego a pensar que não são teus, /Que são de Deus /Pois o seu brilho cintilante emana a bênção divina sobre nós, /Meros humanos. /Não merecemos tanto! /O Sol que há em teus olhos; /Dá luz, calor, vida aos seres, vida ao Universo. /E causa inveja às outras estrelas, /Pois elas pouco duram /E não têm o teu brilho de esperança. /Quando tu pestanejas, /Não significa que a Esperança acaba /Que a vida morre, /Que o Universo explode. /E sim, que é o anúncio de que temos que encher nossos corações, /Repletos de dor e tristeza com ainda mais Esperança, /Pois o brilho que virá será ainda mais intenso /E mais maravilhoso que o anterior. /Quando tu dormes, /É chegada a noite aqui na Terra /E todos os seres vivos permanecem acordados /Para vigiar teu sono e te admirar dormindo. /Ao final, todos dormem de olhos abertos, /E sonham coisas maravilhosas, /Pois teus olhos são o ingresso ao Paraíso. /E mesmo cobertos pelas tuas pálpebras, /Continuam a brilhar, /Pois teu brilho está refletido e contido na Lua, que é o teu sorriso. /E quando tu acordas, /E os abres, lentamente, /Aqui é chegado um novo dia. /Teu crepúsculo anuncia as boas novas de Deus! /Quando tu choras, aqui é chuva. /Não chuva de tristeza, mas de intensa alegria, /Pois tuas lágrimas são água pura e cristalina, /E lava a alma dos homens, /Cura os feridos, /Dá alegria aos que estão tristes, /Devolve a vida aos que perderam a razão de viver. /Teus olhos são um enigma indecifrável, /Eles escondem segredos, /De alguém que tem muito a dizer; /Mas ninguém ousa tentar descobri-los /Pois é pecado. /E quem tenta descobrir, /Morre frustrado, /Apaixonado... /Teus olhos são o reflexo do Amor, /Não esse amor humano frívolo, /Mas aquele amor próprio do filho de Deus. /Teus olhos... /Teus olhos são a luz que me guia dentro dessa minha escuridão, /Escuridão de sentimentos e pensamentos. /Teus olhos são a inspiração de uma poetisa inábil que tem tanto a dizer, /Porém, não sabe mais escolher e escrever as palavras para exaltar estes olhos, /Pois as palavras são Minúsculas e Insignificantes, /Perto desse teu olhar. /Graças a teus olhos, sei que Deus está no meio de nós. /Este mesmo Deus a quem peço todos os dias, /Que não me deixe morrer sem que os veja /Pela última vez... /Por isso, te imploro que não afastes de mim estes benditos olhos, /Porque eles me dão a vida necessária para que, finalmente, /Eu possa morrer por eles”. (MORAES, 2011).
O poema “Teus olhos” é composto de 81 versos, formando uma única e longa estrofe de configuração-gráfica espiralada. As metáforas que aparecem nesse texto poético expressam densamente: fenômenos naturais, oposição trevas-luz, sentimentos e atos da pessoa humana. O substantivo olhos, que tematiza esta arte, é repetido 19 vezes, além do título.
Teus olhos expressa uma simbiose entre os polos do encontro interpessoal e da irrupção mística da divindade; temas estes, defendidos nos textos de Luciane Moraes, em detrimento da fugacidade das relações humanas na esfera da Pós-modernidade, conforme a própria autora afirma, seguindo a esteira de Zigmunt Bauman - sociólogo polonês, autor de Modernidade líquida e Amor líquido, no texto: Sobre equívocos, narcisos e imediatismos:
“Os indivíduos, influenciados pela vivência em meio a um mercado de consumo marcado pela competição, passaram a enxergar o outro como um inimigo em potencial. Diante disso, entre relacionamentos superficiais, valores egocêntricos e atitudes que priorizam o imediato, o altruísmo vai desfalecendo e se tornando uma raridade no mundo contemporâneo”. (MORAES, 2011).
Neste assomo das dimensões do encontro dialógico e da irrupção do mistério sagrado, os olhos-do-outro acarretam uma dimensão transcendente, que dispõe a pessoa que os contempla “apaixonadamente”, num encontro ontológico, ou originário.


3 OS OLHOS

Fazendo advir a temática dos olhos, ou da visão, aclarando-a na palavra poética, enfatiza-se o sentido da visão nos pensamentos de Merleau-Ponty, com “O olho e o espírito”, e em Hans Jonas, no texto: “A nobreza da visão: um estudo sobre a fenomenologia dos sentidos”.
Evidencia-se, com esses pensadores contemporâneos o fenômeno da visão, ou dos “olhos”, que – na composição poética – pertencem a um Tu humano. Como transcrevemos de Teus olhos: “Ah! Teus olhos... /Teus olhos são o puro reflexo da ascensão, /São o reflexo da glória. /São o reflexo de alguém que tudo pode /E que tudo vê”.
Para Merleau-Ponty, a humanidade do ser humano se dá pela corporeidade sentida e visualizada, pois se o ser humano não pudesse sentir ou olhar o seu próprio corpo, “[...] esse corpo quase adamantino que, não fosse carne totalmente, também não seria um corpo de homem, e não haveria humanidade” (MERLEAU-PONTY, 1984, p.89). É com o seu corpo que o ser humano está atuante no mundo. Enxergando-se enquanto corpo, o homem tem um impulso para ser consciente de sua própria existência, enquanto possibilidade de ser no seu mundo cultural, interagindo dialogicamente com os demais seres humanos. O olhar, enquanto propriedade do espírito humano, remete ao pensar-se e pensar-com-os-outros, pois, para perceber a existência dos outros seres humanos e entrar em interação com esses, é necessária a anterior percepção da própria existência no corpo, enquanto existir na possibilidade. Os olhos refletem a ascensão enquanto possibilidade do devir pessoal para a autenticidade, revelando o homem a si, bem como ao mundo e aos outros. Possivelmente, é esta a experiência da poetisa que culmina na redação do poema, pois o olho é: “Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por um certo impacto do mundo e que o restitui ao visível pelos traços da mão” (MERLEAU-PONTY, 1984, p.90-81).

Os traços grafados pela mão da poetisa, em Teus olhos, não restitui, pela técnica, sua comoção, compreendida em seu olhar no encontro, sem mediação, com o Tu, a quem vê; no entanto, a poetisa põe o seu mover-se ao encontro, no Tu que lhe advêm tornando-se tudo, na iluminação penumbrosa da palavra-poética. Teus olhos fala de um encontro interpessoal que se dá na movimentação mundana, mas transcende o mundo, pois o mundo da autora se compreende com o mundo do Tu encontrado. Um encontro imediato que acontece pela somaticidade, esta que é inerente pelo olhar ao próprio ser humano.
Assim, “A visão não é a metamorfose das próprias coisas na sua visão, a dupla pertença das coisas ao grande mundo e a um pequeno mundo privado. É um pensamento que decifra estritamente os sinais dados no corpo (MERLEAU-PONTY, 1984, p.95). ”



A visão, nesse sentido, é compreensão esvaziada do Eu que se encontra receptivamente com a indeterminação do ser do Tu que lhe advêm. Este é o momento de inominável proximidade de duas presenças que se dão no olhar místico que gera a poesia; esta “[...] visão é o encontro, como numa encruzilhada, de todos os aspectos do ser” (MERLEAU-PONTY, 1984, p.109).
Somente quando o encontro se encerra, com a não-presença do Tu, o Eu enuncia a essência do encontro com a palavra-poética, na meia-luz que, metaforicamente, mostra e esconde o que se deu no encontro originário.
O olho, enquanto “[...] janela para o mundo e ao mesmo tempo espelho da alma” (LURKER, 1997, p.497), assoma, na simbologia literária de “Teus olhos”, como elucidação de um autêntico encontro sem palavras, donde brota a obra de arte.
A visão não se detém à boa saúde dos olhos, mas está como capacidade inerente ao ser humano, também chamada contemplação, como quer Hans Jonas: “Os cegos podem ‘ver’ por meio de suas mãos, não por lhes faltar o uso dos olhos, mas, sim, por serem dotados da capacidade universal da ‘contemplação’ e só acidentalmente terem sidos privados do órgão da visão” (JONAS, 2004, p.165).
Distanciar-se do que é visto, possibilita pensar no momento do encontro e recompô-lo na linguagem. “A distância do que é visto fornece uma ‘imagem neutra’, e esta, diferentemente do efeito, pode ser contemplada e comparada, conservada na memória e recordada, variada na imaginação e recomposta a bel-prazer” (JONAS, 2004, p.172).
Em “Teus olhos”, adversamente a um discurso científico, temos uma recomposição artística na metáfora poética, que não se deixa reduzir à relação gnosiológica entre sujeito e objeto, no entanto, conserva o caráter presencial, pois a palavra-poética, chama à presença, o encontro originário.

4 PÔR-EM-OBRA-DA-VERDADE


Trilhando o caminho que descobre “Teus olhos”, trazemos o poema à luz da hermenêutica da linguagem, de Martin Heidegger. Para tanto, evidenciaremos os conceitos heideggerianos que bem casam com os versos da arte em questão, pois aqui a “[...] interpretação nada mais é do que o desenvolvimento do compreender, apropriando-se das possibilidades em que o poder-ser projeta” (NUNES, 2002, p.18).
Desse modo, chamam a atenção nas palavras poéticas de Luciane Moraes, os temas: glória-luz; anúncio; descobrimento; morte; e palavras, conforme enfatizamos.
Em “A origem da obra de arte”, Heidegger afirma que a essência da obra de arte é “pôr-se-em-obra-da-verdade” do ente, quando elaborou a interpretação do quadro “Os sapatos da camponesa”, de Van Gogh. “Na obra de arte, põe-se em obra a verdade do ente: ‘pôr’ significa aqui, erigir. Um ente, um par de sapatos de camponês, acede na obra ao estar na clareira do seu ser. O ser do ente acede à permanência do seu brilho” (HEIDEGGER, 1991, p.27).


Assim, a essência da obra de arte é erigir na linguagem o desvelamento, à meia-luz, do ente que é um não-nada. Um desvelamento-encobrimento, o que significa “à meia-luz”, do ente na obra de arte, que é linguagem e, por conseguinte, poesia, constitui o momento originário no qual a poetisa se confronta com o desvelamento do ser do ente; é o momento do encontro de dois mundos presenciais – sobretudo no caso de “Teus olhos”; é este o momento de enlaçar-se-com, diferentemente de aprisionar-o, desde que “encontro” implique advento e movimento, “[...] lá onde não encontramos a palavra certa para dizer o que nos concerne, o que nos provoca, oprime ou entusiasma” (HEIDEGGER, 2003, p.123).
“Passando ao ressaltamento de conceitos heideggerianos no poema em questão, iniciamos pela temática “glória-luz”, conforme evoca o poema: “São o reflexo da glória. /[...] /O Sol que há em teus olhos; /Dá luz, calor, vida aos seres, vida ao Universo”. Falar de “glória-luz” é referir-se ao advento glorioso da divindade que, na meia-luz, dá sentido a um mundo, o mundo da poetisa. Para tanto, os olhos possuem um “sol”, do qual depende a sua vida e de todo o “universo”; os olhos, cantados pela “poetisa da luz”, chegam no encontro com uma potência divina, pois estes fazem aparecer todo um movimento de entes num universo, iluminando-os. Para Heidegger: “Dignidade e esplendor não são propriedades, a par e por detrás das quais está ainda o deus, pelo contrário, na dignidade, no esplendor, é que advém o deus. No reflexo deste esplendor, reluz, i. é., brilha o que chamamos mundo” (HEIDEGGER, 1991, p.34). A presença, encontrada nos olhos, pelo olhar da poetisa, é pela arte poética a glorificação divina que abre um mundo na linguagem.
Na perspectiva do anúncio, “Poesia é canto [...]. O canto é a festa de chegada dos deuses, a chegada quando tudo se aquieta” (HEIDEGGER, 2003, p.141); no poema, os olhos são “[...] o anúncio de que temos que encher nossos corações, /Repletos de dor e tristeza com ainda mais Esperança”. Os olhos cantados anunciam sua chegada só mediante a linguagem; desse modo, o que anuncia é a poesia, onde os olhos cantados advêm, manifestando-se.
Exprimindo a temática da “mortalidade”, a poesia canta a morte intrínseca ao encontro dado-na-luz. De fato, se a morte não fosse peculiar ao encontro originário, não se comporia o poema, já que a arte é uma convocação do não presente que está vindo.
Canta o poema: “E quem tenta descobrir, /Morre frustrado, /Apaixonado... / [...] /Porque eles me dão a vida necessária para que, finalmente, /Eu possa morrer por eles”.
Tentar descobrir implica movimento apropriador sobre o ser do ente, que se dá no encontro à meia-luz; essa violência sobre o Tu é frustrada porque o ser é dinâmico; ousar acorrentar o ser é decretar a morte do encontro, é fechar-se ao que advêm com a finalidade de se dá no desvelamento-velador. Tentar descobrir é matar o encontro, desde que se atenta contra o devir próprio do ser-do-ente-adveniente; o que significa robustecer a mortalidade-temporalidade do ser.
“A morte é uma possibilidade ontológica que a própria presença sempre tem de assumir. Com a morte, a própria presença é independente em seu poder-ser mais próprio. Nessa possibilidade, o que está em jogo para a presença é pura e simplesmente seu ser-no-mundo. Sua morte é a possibilidade de poder não mais ser presença”. (HEIDEGGER, 2009, p.326).
Presença, segundo Marcia Schuback – uma entre os tradutores de Heidegger no Brasil – equivale ao conceito heideggeriano “Dasein”, que compreende a condição humana enquanto: existência; ser-no-mundo; ser-com-os-outros; e ser-para-a-morte. Nesses sentidos, tanto o ser do ente que tem os olhos colocados “em-obra-de-verdade”, quanto à própria poetisa, são presenças que se compreendem num inominável encontro originário, que veio a ser poesia pelo caráter mortal do próprio encontro-de-presenças-mortais. A vida, que a poetisa recebe no encontro da presença que se desvela no olhar, está na propriedade de enlaçar-se-com no movimento inefável do ser e, por isso, a mortalidade da poetisa, que consiste numa entrega de si, acontece no grafar e publicar o poema, que traz à luz o seu encontro originário com a presença do Tu, por quem dá a sua vida.
Quanto à esfera da linguagem, expressa em “Teus olhos”, traz à luz a poetisa: “Teus olhos são a inspiração de uma poetisa inábil que tem tanto a dizer, /Porém não sabe mais escolher e escrever as palavras para exaltar estes olhos, /Pois as palavras são Minúsculas e Insignificantes, /Perto desse teu olhar”.
Nesses versos, estão elucidadas a in-apreensão da linguagem acerca do encontro originário e a disparidade entre “ser-acontecendo-aí”, perante o ato de pensar o encontro que morreu e o posterior, convocá-lo na nominação poética, que é diferente do pensar. Pois: “A linguagem é a casa do ser. Nessa habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas dessa habitação. A guarda que exercem é o consumar a manifestação do ser, na medida em que a levam à linguagem e nela a conservam” (HEIDEGGER, 1998, p.31).
De certo, as palavras são inferiores a realidade do encontro-acontecendo. As palavras, em “Teus olhos”, não esgotam o encontro originário, pois na metáfora poética esse vem à luz da linguagem, isso o mata, no entanto, pela imprecisão poética da metáfora, com sua penumbra. O encontro originário é sempre: vivo, móvel e adveniente; o encontro cantado na poesia transcende a poesia. “A renúncia que o poeta aprende é do tipo de uma abnegação plena, à qual somente se prenuncia o que há muito se vela e propriamente já sempre se consente” (HEIDEGGER, 2003, p. 129 – 130).
Na arte, o momento originário é sempre possibilidade de acontecimento, pois esse inaugura um mundo que anuncia o advento do ser no ente, que, por sua vez, convoca o encontro à meia-luz, o encontro imediato, presencial e inefável.


5 HERMENÊUTICA DO ENCONTRO

Foram enfatizados neste, os termos: encontro, compreensão e diálogo; temas estes que vêm a propósito ao pensar-se numa hermenêutica do encontro, dada em “Teus olhos”; essa, sublinhamo-la a partir do pensamento de Martin Buber, desde sua obra “Eu e Tu”. Nesta, a esfera das relações científicas difere da esfera das relações pessoais, a que nos interessa. “O mundo, como experiência, diz respeito à palavra-princípio EU-ISSO. A palavra princípio EU-TU fundamenta o mundo da relação” (BUBER, 2004, p.55).


Em “Teus olhos”, a relação “Eu–Tu”, vivenciada pela poetisa, é explícita. Na obra de arte em questão, os olhos são de um Tu–humano, tanto quanto a poetisa é uma pessoa humana, conforme o poema: “Quando tu choras, aqui é chuva. /Não chuva de tristeza, mas de intensa alegria”. Este “chorar de alegria”, do Eu perante o Tu que, por seu turno também chora, não consiste num sadismo ou perversidade do Eu, porém numa verdadeira alegria, numa alegria que comove as entranhas do ser Eu, por ter encontrado um Tu humano que dá sentido para a sua existência. Tampouco, é aquela uma alegria egoísta, no sentido do Eu alegrar-se primordialmente pela própria possibilidade de ser, instrumentalizando o encontro com o Tu, pois na esfera da relação Eu – Tu está o inefável e a relação científica Sujeito–Objeto não penetra o imediato do Eu–Tu. “A relação com o Tu é imediata. Entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade” (BUBER, 2004, p.59).
Na totalidade do encontro Eu–Tu, enfatizada nos recentes versos de “Teus olhos”, citados acima, a relação aparece como condição sem a qual a pessoa humana não se realiza na sua história dialógica e de comunhão de sentimentos propriamente humanos. Aqui tocamos na temática do destino e da liberdade das pessoas humanas; ambos impulsionam o ser humano para adentrar ou rejeitar a esfera do encontro dialógico, desde que este encontro convoca o Eu a compreender-se responsavelmente com o Tu, descobrindo sua realização na vigência do encontro com o Tu; assim diz o poema: “Por isso, te imploro que não afastes de mim estes benditos olhos”.
O Tu humano está em movimento perante o Eu, assim como tudo o que venha a se configurar como um Tu para um eu e seja aquém da esfera divina. No entanto, é na liberdade do Eu e do Tu, sobretudo se humanos, que estes se-movimentam-para-o-outro, encontrando o enlace feliz do ser-eu-apenas-no-outro, o que configura a liberdade pessoal no encontro: “[...] o homem livre não tem, aqui, uma finalidade e, lá, os meios para obtê-lo; ele possui somente um objetivo e sempre um: a resolução de ir ao encontro de seu destino” (BUBER, 2004, p. 91).
Dado que o encontro do Eu com qualquer Tu que não seja o divino é fadado ao devir, ao findar-se no tempo e na mortalidade, o Tu-ausente passa a se configurar como Isso para o Eu, que, nessa perspectiva, pode pensar esse Isso e trazê-lo à luz pela linguagem da obra de arte, que convoca o Tu cantado (o Isso), à presença, para que passe novamente a ser Tu, não apenas para a poetisa, porém também para as demais pessoas humanas que poderão vivenciar um encontro Eu – Tu, com a obra de arte; ou seja, a “experiência estética”, pois, “[...] a obra de arte não possui nenhuma utilidade a não ser aquela para a qual é construída – proporcionar a experiência estética” (DUARTE JUNIOR, 2003, p.42).
A partir da fugacidade de qualquer Tu que se torne Isso, para o Eu, este Eu busca a realização plena que preencha o vazio deixado pela ausência do Tu-não-divino. Aqui, o Eu se volta para a esfera divina como seu fim último, que não é marcado pela mortal temporalidade, pois ali habita o “Tu eterno”, do qual o Tu humano já porta o sinal convocador. “As linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no Tu eterno./ Cada Tu individualizado é uma perspectiva para ele. Através de cada Tu individualizado, a palavra-princípio invoca o Tu eterno” (BUBER, 2004, p.101).
Perante o Eu, assim como o Tu-aquém-do-humano convoca o Tu humano – na sua limitação temporal perante a personalidade humana, esta convoca o Tu eterno, quando esse Tu humano torna-se Isso. Certamente, aquele Tu humano, ao se encontrar com o Eu, já faz habitar, no encontro, centelhas do Tu eterno.

6 O ADVENTO DO “TU ETERNO”

Na pessoa que vem ao encontro em “Teus olhos”, como enfatizamos, há a invocação da divindade, portanto do “Tu eterno”, do Deus inominável. O Tu que vem ao encontro do Eu, é - no poema - sinal da esfera transcendente; como canta o poema: “Ah! Teus olhos... /São divinos! /Chego a pensar que não são teus, /Que são de Deus”.
“Deus”, escrito com inicial maiúscula, designa o nome da divindade na tradição cristã que chega aos nossos dias, para falar da divindade em língua portuguesa. Neste itinerário, pode-se inferir que, para a poetisa, o Deus que advêm no encontro com o Tu humano é o Deus dos cristãos, o Deus uno e trino que habita o coração da pessoa humana, como escreveu a mística católica, Elisabete da Trindade, na Carta 258, codificada no seu epistolário: “Que alegria crer que Deus nos ama a ponto de habitar em nós, de fazer-se companheiro de nosso exílio, o confidente, o amigo de todos os momentos” (TRINDADE apud SCIADINI, 2006, p. 218).
Na relação imediata com a pessoa próxima, há a presença do mistério inefável que envolve e une o Eu com o Tu na dimensão do encontro. Trata-se da presença divina que põe em evidência o Tu que porta a presença inominável, pois, nas relações humanas com Deus, “[...] afigura-se que Ele está conosco, mantendo-se silencioso atrás de nós, enquanto não O chamamos e não nos voltamos para olhá-l’O; mas, se por ventura o fazemos, no mesmo instante, Ele desaparece” (RAHNER, 1961, p.41).
De “Teus olhos”, sabe-se que o encontro da poetisa com o homem dos olhos cantados, não é algum evento que se dê na ausência de fundamento, pois a fundação desta relação imediata está na própria presença de Deus que se dá refletida no Tu que é recebido com amor, como escreve a poetisa: “Teu crepúsculo anuncia as boas novas de Deus! /[...] /Graças a teus olhos, sei que Deus está no meio de nós”.
Esses versos se erguem contra os pensamentos niilistas da morte de Deus e negação do fundamento, dado que é o ser humano que, na sua mortalidade, falha ao colocar a divindade como objeto do seu limitado conhecimento. Certamente, é o ser humano fadado ao devir, quem se projeta tentando, sem êxito, conceituar Deus e lhe atribuir a mortalidade. Assim, visto que todo o ser humano seja mortal, quer queira ou não, a sua mortalidade anuncia o que Deus não é, dado que o insondável fundamento permanece, desde que, “[...] a palavra ‘Deus’ não é palavra qualquer, mas é a palavra na qual a língua – ou seja, a consciência de si do mundo e da existência conjuntamente, que se expressa – apreende a si em seu fundamento” (RAHNER, 1989, p.67).
 

Enquanto na relação imediata entre pessoas humanas se der importância para a evocação da divindade presente no Tu que se encontra, as relações humanas acontecerão na autenticidade, posto que estejam fundamentadas na presença transcendente do mistério inefável, que garante a dignidade do amor ao próximo, enquanto evento basilar de um diálogo genuíno, que perpasse o ser-do-outro no olhar, até que brote no âmago do ser humano a palavra autêntica, que garanta a felicidade à pessoa humana, como ser-com-os-outros-no-mundo, que na mortalidade manifeste o assomo do eterno e inefável mistério de Deus.

7 CONCLUSÃO

Colocar à luz, pela linguagem poética, a experiência de um encontro originário, que se compreendeu no tempo com uma pessoa humana, é dar relevância a este evento e à pessoa que advêm com seu olhar, ou seja, com a abertura do seu ser, num momento inominável, que inclusive convoca - na sua constituição ontológica, desvelada à meia-luz no encontro fundante – o advento de Deus, enquanto “Tu eterno”, que garante a felicidade de todo o ser humano, inclusive fundamentando toda a realidade fadada ao devir existencial e, paradoxalmente, continuando presente e inominável, advindo na linguagem místico-poética, quando respaldada na fé.
Esta hermenêutica de “Teus olhos” coloca, numa linguagem pensada, uma resposta ofensiva a qualquer investida niilista e relativista, suposto que o Deus único e eterno, mesmo permanecendo inominável para o conhecimento humano, funda todas as coisas, sobretudo o ser-com-os-outros-no-mundo, mesmo estando este vinculado existencialmente ao devir.

REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Eu e Tu. 8. ed. São Paulo: Centauro, 2004.
DUARTE JUNIOR, João-Francisco. O que é beleza. São Paulo: Brasiliense, 2003.
HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. 2. ed. [Trad: Márcia Sá C. Schuback]. Petrópolis: Vozes, 2003.
_______. A origem da obra de arte. Lisboa: Ed. 70, 1991.
_______. Carta sobre o humanismo: carta a Jean Beaufret (Paris). 5.ed. Lisboa: Guimarães Ed., 1998.
_______. Ser e tempo. 4. ed. [Trad: Márcia Sá C. Schuback]. Petrópolis: Vozes, 2009.
JONAS, Hans. A nobreza da visão: um estudo sobre a fenomenologia dos sentidos. In: ______. O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica. Petrópolis: Vozes, 2004, p.159-180.
LURKER, Manfred. Dicionário de simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. In: Maurice Merleau-Ponty. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984, p. 85-111. (Col. Os pensadores).
MORAES, Luciane Oliveira.  Sobre equívocos, narcisos e imediatismos. Disponível em: <http://www.webartigosos.com/artigos/sobre-equivocos-narcisos-e-imediatismos/78627/>. Acesso em: 25 out. 2011.
_______. Teus olhos. Disponível em: <http://www.webartigosos.com/artigos/teus-olhos/72123/>. Acesso em: 25 out. 2011.
NUNES, Benedito. Heidegger e Ser e tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
RAHNER, Karl. Trevas e luz na oração. São Paulo: Heder, 1961.
_______. Curso fundamental da fé: introdução ao conceito de cristianismo. [Trad.: A. Costa]. São Paulo: Paulinas, 1989.
SCIADINI, Frei Patrício. Eu, Elisabete da Trindade. São Paulo: Loyola, 2006.



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