terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte3)



2 KAROL WOJTYŁA: dramaturgo, poeta e filósofo


Karol Josef Wojtyła (1920-2005) é mais conhecido como “João Paulo II”, o carismático e diplomata papa polonês que guiou a Igreja Católica Romana de 1979 até 2005. Wojtyła, como dramaturgo, poeta e filósofo, deu suas contribuições para a antropologia e para a ética escrevendo vários textos, os quais foram produzidos antes de ser eleito Sumo Pontífice.
As principais fontes literárias utilizadas para a elaboração desta abordagem acerca da vida intelectual de Karol Wojtyła são: o artigo “A filosofia personalista de Karol Wojtyła”, de Juan Burgos; a biografia de Wojtyła escrita por Bernstein e Politi: “Sua santidade: João Paulo II e a História oculta de nosso tempo”; e o livro “Dom e mistério”, escrito por Wojtyła no exercício de seu pontificado à frente da Igreja Católica Romana.


2.1 A experiência teatral


Aos 14 anos, quando cursava o ginásio em Wadowice (Polônia), Wojtyła atuou no teatro. Nesse período ginasial, ele se dedica à leitura e encenação de peças teatrais e de poesias românticas, junto a um grupo de outros jovens atores, em meio aos quais acumulou os encargos de diretor e cenógrafo do grupo.
Ainda em Wadowice, ele encontrou pela primeira vez o professor polonês Mieczysław Kotlarczyk (1908-1978), grande incentivador do teatro e da literatura, e mentor da “Palavra Viva” no teatro polonês. Sobre Kotlarczyk, afirma Bernstein e Politi (1996, p. 70):

Kotlarczyk aspirava a criar um teatro das profundezas interiores ‘no qual, mais do que apenas assistir a uma apresentação, a pessoa ouve’. O ator, aprendeu Wojtyła, precisa seguir o verso e não abafá-lo na tragédia. Seu objetivo deve ser o de gravar seu personagem na percepção do espectador.

Em 1938, Wojtyła se muda com seu pai - o tenente Wojtyła - para Cracóvia, onde frequenta o curso de Filologia e Literatura polonesa pela Universidade Jaguelônica, bruscamente interrompida, no ano seguinte, com o estouro da II Guerra Mundial (1939-1945) e com a invasão nazista, que tomou o poder na Polônia e impôs grandes restrições à Igreja Católica, à comunidade judaica e à cultura local.
Nesse período, Wojtyła assume um ideal cristão e romântico, participando do grupo clandestino Rosário vivo, sob a orientação disciplinar de Jan Tyranowski (1901-1947)[1]; debruça-se sobre a literatura mística dos santos espanhóis, João da Cruz e Teresa de Ávila[2]; produziu três peças teatrais, intituladas: David, Jó, e Jeremias. Por fim, toma ainda parte ativa no grupo de teatro clandestino Studio 39, engajado na manutenção da cultura patriótica da Polônia. De acordo com Bernstein e Politi (1996, p. 62):

O teatro se transformou então numa arma na defesa da cultura polonesa e da pátria polonesa diante do implacável ataque nazista. Com este espírito de resistência de inspiração religiosa, Wojtyła começou a fazer apresentações clandestinas com um grupo de amigos que se denominava Studio 39.

Em 1940, por determinação da ocupação nazista sobre a obrigatoriedade do trabalho juvenil, Wojtyła começa a trabalhar na pedreira Zakrzówek da Solvay e, mais tarde, é transferido para o manuseio de produtos químicos na fabrica em Borek Fałęcki, experimentando os rigores que os ocupantes infligiam ao povo polonês de uma forma mais intensa. No ano seguinte, reencontra o professor Kotlarczyk, com quem elabora o Teatro Rapsódico, o qual tem como característica a palavra declamada que o cenário.




2.2 A via poética


A sensibilidade poética de Karol Wojtyła é predominante em sua vida. Constata-se isto desde a sua juventude, quando se apaixona pela literatura polonesa, até à sua senilidade, quando publicou o livro de poemas “Tríptico romano - Meditações” (2003).
As composições poéticas de Wojtyła, todas coerentes com o seu pensamento filosófico, põem em evidência a pessoa humana na sua ação; como afirma Bogdan Piotrowski (2007, p.97): “E, sempre, sua expressão lírica se fundamenta decididamente na ética, buscando o bem da pessoa e o bem comum”[3]. Os temas recorrentes dos poemas de Wojtyła estão intrinsecamente vinculados à dimensão teatral, ao romantismo em voga na literatura polonesa no período da juventude de nosso pensador-poeta e à sua experiência religiosa, enquanto manifestação da transcendência humana. Neste sentido, vale ressaltar a grande influência mística que Karol Wojtyła hauriu da leitura dos escritos de São João da Cruz.
Concordando com a tendência literária da “palavra-viva”, Wojtyła dá às suas composições uma propriedade cultural polonesa, no sentido de conservar o espírito eslavo durante o domínio nazista sobre sua nação, dominação política que também prejudicava a vivacidade da cultura de seu povo.
Característico da pulsão humana presente na via poética empreendida por Karol Wojtyła são as duas versões do poema “Mousiké”, pois neste, nosso poeta busca uma originalidade poética que se funda na Grécia clássica; assim, esclarece Piotrowski (2007, p.88):  “[...] os gregos chamavam mousiké a toda a arte, em sua tríplice configuração de poesia, música e dança”.[4] Peculiaridades estas, também presentes nos seus demais poemas, como em “Matéria”, do qual citamos duas estrofes, que Wojtyła assina como papa João Paulo II (1996, p. 15):

Ouve! o ritmo cadenciado dos martelos, bem / conhecido, projeto-o nos homens, para pro - / var a força de cada pancada.

Ouve! Uma descarga elétrica corta o rio de / pedra, / dentro de mim, cresce um pensamento, dia / após dia: / toda a grandeza do trabalho está dentro do / homem...

Em Wojtyła, a palavra viva se manifesta ao modo de bondade, beleza e verdade, num caminho poético que convoca o aparecimento do fundamento transcendente da linguagem artística, como manifestação da vida da pessoa humana.


2.3 O itinerário filosófico


Em sua juventude, conforme redigiram Bernstein e Politi, Karol Wojtyła já havia lido com o auxílio de seu pai as obras: Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant; e O Capital, de Karl Marx[5], ambas em alemão, a língua original. Porém, sua formação filosófica mais densa, sobretudo no campo da metafísica aristotélico-tomista, se deu no biênio filosófico, enquanto estava no seminário clandestino, preparando-se para ser padre. A construção de seu pensamento filosófico foi também influenciada pelas esferas fenomenológica, que evidenciaremos mais a frente, e personalista[6].
Depois da ordenação sacerdotal, especializou-se em Teologia e Filosofia, doutorando-se com as teses: “A fé segundo São João da Cruz”, em Teologia (1948); e a “Valoração sobre a possibilidade de construir a ética cristã sobre as bases do sistema de Max Scheler”, em Filosofia (1954).
Juan Manuel Burgos, em seu artigo intitulado “A Filosofia Personalista de Karol Wojtyła” (2006), agrupa o desenvolvimento do pensamento filosófico de Wojtyła em quatro períodos, a saber: a escola ética de Lublin; o amor humano em “Amor e responsabilidade” (1960); a antropologia em “Pessoa e ação” (1969); e o caminho impedido nas áreas das filosofias interpessoal e social.


2.3.1 A escola ética de Lublín


No contexto da escola ética de Lublín, Karol Wojtyła se baseia na metafísica de santo Tomás de Aquino, no empirismo de Hume, no Imperativo categórico de Kant e na ética valorativa dos modelos, de Max Scheler. Fá-lo para realizar sua síntese entre Tomismo e Fenomenologia, além de recorrer à noção de “experiência moral”. Seu objetivo era defender a ética cristã das ameaças que constituem o pensamento hedonista, positivista e apriorista kantiano. Tal escola centrava-se no objetivo de re-fundar as bases da ética clássica através da perspectiva fenomenológica. Assim, a ética lubliniana se funda na experiência moral em sentido realista, pautada no dever de fazer o bem e evitar o mal. Sobre isto escreveu Juan Burgos (2006):

Wojtyła recorre com profundidade à noção de experiência moral. A ética, explica, não surge de nenhuma estrutura externa ao sujeito, não é uma construção mental gerada por pressões sociológicas, nasce de um princípio real e originário: a experiência moral, a experiência do dever, porém não entendido de modo kantiano, como a estrutura formal da razão prática, senão em um sentido profundamente realista, como a experiência que todo sujeito possui – em cada ação ética concreta – de que deve fazer o bem e deve evitar o mal. [7]


2.3.2 O amor humano em “Amor e responsabilidade”


O livro Amor e responsabilidade (1960), como afirma Karol Wojtyła, surgiu da necessidade pastoral de orientar os jovens que se preparavam para o matrimônio, bem como os recém-casados. De fato, João Paulo II, numa entrevista concedida a Vittorio Messori, diz:

Naqueles anos, a coisa mais importante para mim se tornaram os jovens, que me colocaram não tanto perguntas sobre a existência de Deus, mas questões precisas sobre a forma de viver, ou seja, sobre a maneira de resolver e enfrentar os problemas do amor, e do matrimônio, bem como os relacionados com o mundo do trabalho. (MESSORI; JOÃO PAULO II, 1994, p.185-186).

“Amor e responsabilidade” é uma obra ética que prioriza a integração da sexualidade e as relações interpessoais entre homem e mulher; também é uma obra na qual Wojtyła enfrenta a ética utilitarista, contrapondo a esta o conceito de “Norma personalista”. Este conceito foi formulado a partir do preceito cristão da caridade mútua e, também, a partir do princípio kantiano de não instrumentalização do sujeito, que afirma: “O imperativo prático será pois o seguinte: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”(KANT, 1992, p.69). Além do mais, esta obra evidencia o matrimônio como a realização máxima do amor entre homem e mulher.


2.3.3 A antropologia em “Pessoa e ação”


Por seu turno, na obra Pessoa e ação (1969), Wojtyła apresenta bases antropológicas em suas pesquisas relativas à ética e sintetiza Tomismo e Fenomenologia, numa abordagem Personalista. Acentuando a experiência humana, ele destaca que é a ação que faz aparecer a pessoa e que o ato da pessoa permeia todas as dimensões antropológicas do sujeito: “Para nós, a ação revela a pessoa, e vemos a pessoa através de sua ação [...].  A ação nos oferece o melhor acesso para penetrar na essência intrínseca da pessoa e nos permite conseguir o maior grau possível de conhecimento da pessoa”( WOJTYŁA apud SILVA, 2005, p.28). Para Wojtyła, a consciência como lugar do discernimento moral e  sinal da liberdade humana se manifesta por meio da escolha e autodeterminação. “À consciência compete que se forme a experiência da pessoa e permite a ela experienciar a própria subjetividade. A consciência subjetiva o objetivo” (SILVA, 2005, p.32). Wojtyła concebe o ser humano como um conjunto integrado de corpo (soma) e alma (psique). Para ele, “[...] a alma é distinta do corpo, porém no homem formam uma unidade, e se condicionam mutuamente” (WOJTYŁA, 2011, p.320)[8].
De 1975 a 1978, com o auxílio da Dra. Anna-Teresa Tymieniecka, Wojtyła revisou a obra Pessoa e ação e deu-lhe os devidos acabamentos. Foi publicada no décimo volume da revista Analecta Husserliana, em língua inglesa. Como registram Bernstein e Politi (1996, p.141): “Em essência, ela foi colaboradora e editora. Até a presença dela na vida do cardeal, ele tinha sido ignorado e até mesmo rejeitado pela comunidade filosófica”.


2.3.4 O caminho impedido nas filosofias, interpessoal e social


Juan Burgos aponta a eleição de Karol Wojtyła para o encargo de Sumo pontífice da Igreja católica e a consequente interrupção de sua carreira acadêmica como justificativas para a ausência de grandes produções filosóficas que tratem das relações interpessoais e da filosofia social nos escritos filosóficos de Wojtyła. Sem estes fatos nosso filósofo poderia não constar na lista dos pensadores personalistas. Com isso, Burgos expressa o não alheamento de Wojtyła das questões interpessoais e sociais, respaldado nos artigos de nosso filósofo, como “A pessoa: sujeito e comunidade” (1976); artigo este no qual Wojtyła evidencia as relações interpessoais entre sujeitos humanos, denominadas “Eu-tu” e as relações sociais em vista do bem comum, chamadas “Nós”.
Mesmo tendo encerrado sua produção estritamente filosófica após ter assumido o encargo de papa, com o nome de João Paulo II; o papa Wojtyła embasou os seus documentos pontifícios, inclusive suas “Catequeses sobre o amor humano” as quais abordaremos mais a frente, nos conceitos antropológicos e éticos que trabalhou nas suas produções filosóficas.



[1] Sobre Tyranowski, comenta em “Dom e mistério”, Karol Wojtyła como papa João Paulo II (1996, p.32): “Era um operário, apesar de ter escolhido trabalhar na alfaiataria do pai. Afirmava que o trabalho de alfaiate lhe facilitava a vida interior. Era um homem de uma espiritualidade particularmente profunda. Os padres salesianos, que naquele período difícil, tinham voltado a animar a pastoral juvenil, haviam-lhe confiado o encargo de travar contatos com os jovens, no âmbito do chamado ‘rosário vivo’”.
[2] São João da Cruz (1542-1591) e Santa Teresa de Ávila (1515-1582) são dois místicos espanhóis que foram amigos pessoais e promoveram uma reforma nos ramos masculino e feminino da ordem carmelita. Foram redigidas, entre outros escritos, por João da Cruz as obras: “Subida ao monte Carmelo”, “Chama viva de amor” e “Cântico espiritual”, ao passo que Teresa de Ávila escreveu: “O Livro da Vida”, “As sete moradas ou Castelo interior”, “Caminho de Perfeição”, entre outras obras.
[3] Fonte em espanhol:.“Y, siempre, su expresión lírica se fundamenta decididamente en la ética, buscando el bien de la persona y el bien común”.
[4] Fonte em espanhol: “[...] los griegos llamaban mousiké a toda el arte, en su triple configuración de poesía, música y danza”
[5] Immanuel Kant (1724-1804) e Karl Marx (1818-1883) são filósofos alemães. Kant é vinculado ao pensamento idealista alemão e à Teoria do conhecimento ao passo que Marx pertence a corrente do materialismo dialético.
[6]  O Personalismo consiste num movimento filosófico nascido na França do século XX, fundado por Emmanuel Mounier (1905-1950), vinculado à revista “Esprit” que surgiu em 1932. O Personalismo, aliado aos ideais cristãos, afirma o valor intrínseco da pessoa humana, que está vinculado à dimensão comunitária; combatendo o capitalismo e o marxismo.
[7] Fonte em espanhol: “Wojtyła recurre con profundidad y originalidad a la noción de experiencia moral. La ética, explica, no surge de ninguna estructura externa al sujeto, no es una construcción mental generada por presiones sociológicas, nace de un principio real y originario: la experiencia moral, la experiencia del deber, pero no entendido en modo kantiano, como la estructura formal de la razón práctica, sino e muy sentido profundamente realista, como la experiencia que todo sujeto posee – en cada acción ética concreta – de que debe hacer el bien y debe evitar el mal”.
[8] Fonte em espanhol: “La psique es distinta del soma, pero en el hombre forman una unidad, y se condicionan mutuamente”

Nenhum comentário:

Postar um comentário