terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte2)

1 INTRODUÇÃO


Na ética pragmático-liberal, vigorante em nosso atual mundo dito globalizado, o corpo humano é frequentemente rebaixado à posição de coisa submissa à lógica mercadológica; sua importância tem que estar em conformidade com o padrão de beleza física, estandardizado no mercado e na mídia, para que atenda as necessidades do consumo em voga. Nesta esteira, a corporeidade é aviltada na sua dignidade de partícipe do composto humano, por ser reduzida ao setor material disponível no comércio. Preocupando-nos com o estado de decadência imposto avassaladoramente à dimensão somática do homem, desejamos pôr em evidência os princípios éticos da dignidade humana. E para isto, acercamo-nos da produção filosófica de Karol Wojtyła. Sendo assim, a pergunta é: Qual é a contribuição de Karol Wojtyła para o resgate da dignidade da corporeidade humana? Para responder a esta questão, seguir-se-á a metodologia de revisão de literatura de natureza analítica, descritiva e crítica sobre a temática da somaticidade humana e seu resgate no pensamento de Wojtyła, com o objetivo de pôr em destaque um pensamento que evidencie a dignidade da pessoa humana na perspectiva da ética do amor. A fim de chegar às conclusões necessárias, será efetivada a pesquisa literária em livros e outros periódicos, disponíveis em meios, impresso e eletrônico.
Perante a impostação da moral utilitarista, que defende a utilização de qualquer meio desde que se obtenha o máximo de prazer, mantida em nossa atual cultura hiper-consumista, a pessoa imerge no anonimato da massa humana donde tenta se singularizar e destacar sua subjetividade através do ter e do aparecer, em detrimento do cultivo do ser pessoa. Há aqui uma redução da perenidade de sua essência à fugacidade existencial.
Neste contexto atual é preocupante o culto à formosura corporal e a instrumentalização da pessoa. Tal instrumentalização está muito ligada a busca de satisfação prazerosa como fim. Daí a exploração sexual, a prostituição e o tráfico humano, o enfraquecimento nas relações interpessoais, sobretudo, como quer trabalhar a nossa pesquisa, nas relações afetivas entre homem e mulher, que, na questão do namoro e matrimônio, ficam reduzidas ao uso do outro em vista da paixão sentida e do prazer almejado.
Assim, encontramos o problema do pouco amor ou do não amor, no sentido de preocupar-se e agir com fim na realização do outro, sempre nessa esfera de relação amorosa entre homem e mulher, com a consequência do empobrecimento do ser-pessoa do outro. Então, temos uma relação frustrante e passageira que não se sustenta, dado que se move conforme a lógica da instrumentalização e exploração da pessoa-coisificada. Ora, nenhuma pessoa gosta de ser explorada e diminuída na sua dignidade de pessoa humana. Com a mentalidade utilitarista em vigor, que tolhe o amor e o engrandecimento do ser humano, este é concebido no mesmo nível das coisas e outras espécies vivas, isto obscurece sua liberdade. Assim, não é de admirar que haja o desmoronamento do matrimônio e da família, a desumanização e o desrespeito a vida humana, da concepção até seu declínio natural.
Esta realidade hodierna se torna problema para quem almeja resgatar o valor da pessoa humana em sua essência, a genuína felicidade alcançada pela vivência do amor e os valores da corporeidade e das relações amorosas entre homem e mulher, numa ética filosófica que auxilie nas respostas aos problemas citados. Desse modo, deparamo-nos com a rica contribuição do filósofo polonês Karol Jozef Wojtyła (1920–2005), no que se refere ao personalismo cristão, esse que inclusive como papa da Igreja Católica Romana, de 1978 a 2005, trouxe à luz seus pensamentos filosóficos no campo teológico.
O presente trabalho monográfico está estruturado em cinco capítulos, nos quais se apresenta uma síntese biográfica de Karol Wojtyła, uma abordagem sobre a questão da desvalorização do corpo humano no mundo atual, uma pesquisa acerca do confronto entre as éticas de Max Scheler e de Karol Wojtyła, a exposição da ética wojtyliana do amor e, por fim, a evidenciação da dignidade do corpo da pessoa humana, com base na ética e na antropologia, wojtylianas.
No capítulo “KAROL WOJTYŁA: dramaturgo, poeta e filósofo”, há uma biografia da vida intelectual de Karol Wojtyła, enfatizando a sua nacionalidade polonesa e o amor que ele nutriu pela cultura de seu povo que o levou a enveredar o caminho da literatura poética e da arte dramatúrgica; mais à frente, destaca-se o seu percurso filosófico intimamente associado à sua vida de clérigo da Igreja católica.
Em “A PROBLEMÁTICA DO CORPO HUMANO NO MUNDO ATUAL”, evidencia-se a cisão Corpo-alma na compreensão do ser humano ao longo da história da filosofia, a imposição da ética utilitarista pelo poder mercadológico às pessoas massificadas pelos meios de comunicação e a redução da compreensão acerca do ser humano à materialidade somática.
No capítulo seguinte, “KAROL WOJTYŁA E A ÉTICA DE MAX SCHELER”, mostra-se a tentativa de Karol Wojtyła de aproximar fenomenologia e moral cristã, ao pesquisar a possibilidade de basear a ética cristã no sistema ético de Max Scheler e, concluída a impossibilidade desta empresa, a resultante síntese entre linguagem fenomenológica e o pensamento tomista, que caracterizam a filosofia wojtyliana.
Em “A ÉTICA WOJTYLIANA DO AMOR”, apresentam-se três obras de nosso pensador, que dizem respeito à vivência ética do amor entre homem e mulher; são o teatro “A loja do ourives”, a obra ética “Amor e responsabilidade” e a obra teológica “Homem e mulher o criou”, que constituem fundamentos essenciais para se compreender a abordagem sobre o amor humano no pensamento de Karol Wojtyła.
Enfim, o capítulo “A DIGNIDADE PESSOAL DO CORPO HUMANO”, baseando-se no pensamento antropológico de Karol Wojtyła, sobretudo na sua obra “Pessoa e ação”, enfatiza a integração da reatividade corporal na personalidade humana por meio da administração dos gestos corporais pela vontade, sempre motivada pela consciência que visa o bem de toda a pessoa humana, dado que o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus.
Assim, segue-se este trabalho monográfico que tendo por objetivo evidenciar a dignidade da pessoa humana com o seu corpo, mostra a perenidade do pensamento wojtyliano como orientação ética embasada na fé e no amor que propicia uma educação de toda a pessoa humana em vista do bem comum na família e na sociedade em geral.



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