terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte 8)



 7 CONCLUSÃO


Na ética do amor de Karol Wojtyła, o corpo humano encontra sua dignidade e corresponde ao que realmente é, ou seja, corpo pessoal. E o é a medida que exprime concretamente a ação da pessoa humana perante o outro, seja no matrimônio ou na comunidade. Afinal a “lógica” da vocação da pessoa humana é fazer-se dom ao outro, na medida do amor.
Sabemos que o rebaixamento do corpo à coisa ou instrumento de uso, dissociado da espiritualidade do ser humano, constitui resultado de uma mentalidade que se assenta no primado do “eu”, ou seja, na verdade subjetiva, que dá azo para que o homem, através da ciência e da técnica, usurpe o lugar de Deus e no seu modo de conhecer e de agir deturpe a realidade conforme lhe apraz. Esta afirmação do ego chega ao extremo de utilizar a outra pessoa como meio para se alcançar um fim agradável àquele que instrumentaliza.
A instrumentalização do outro, fere-lhe a sua dignidade pessoal que, conforme a ética wojtyliana, se dá no amor oblativo[1], coerente com o preceito cristão e na liberdade de autodeterminação pessoal de decisão para se fazer dom ao outro. Certamente a pessoa humana exerce sua liberdade com relação ao seu corpo, não quando sofre a alienação dele, mas quando participa com ele na construção do bem da alteridade.
Nesta participação, a pessoa humana atua perante o outro, ou perante a comunidade, com os gestos corporais que expressam a livre decisão de sua consciência. É, pois, na consciência que reconhece segundo a verdade objetiva, que se pode tomar a decisão por fazer de si um dom ao outro através da vivência do amor, entregando-se pelos gestos corporais, coerentes com a consciência pessoal.
No tocante ao corpo na relação de amor entre homem e mulher, a finalidade vivenciada deste amor é a união dos amantes que desejam integrar-se numa unidade, aparecendo no ato do amor conjugal a busca por este anseio do casal.
A via unitiva dos cônjuges manifesta o corpo na sua dignidade pessoal à medida que os amantes agem conscientemente, logo de maneira voluntária, jamais se apossando do outro como se fosse um objeto – o que caracteriza o egoísmo-, mas recebendo a pessoa amada como dom e reciprocamente se entregando a ela. Aí, a vocação das pessoas que se casam se manifesta pelo corpo enquanto entrega recíproca de abertura e procriação. Este ato mútuo constitui uma convergência de homem e mulher no vínculo do amor esponsal, que responsavelmente se tornam fiéis entre si, vendo o cônjuge como bem em si mesmo.
A pessoa humana é sempre um bem em si mesmo porque é criada e querida por Deus, à imagem e semelhança Dele. Deus, na revelação cristã é amor que se doa para o bem dos seres humanos, habitando na interioridade de cada pessoa humana, o que faz o cristianismo  acreditar no corpo da pessoa como templo do Espírito Santo, ou seja, morada sagrada do próprio Deus, que é amor.
Esta visão cristã acerca da sacralidade do corpo da pessoa está em sintonia com o pensamento patrístico e com o realismo da filosofia tomista. Aqui Deus é a verdade absoluta ou Sumo bem doador da essência e da existência do ser humano e demais criaturas.
Segundo esta visão, pois, quando o casal humano, homem e mulher se entre olham, a fim de que se amem com justiça, ambos transcendem a aparência física e contemplam a presença viva de Deus no interior da pessoa amada e na sua mútua união. Esta divina presença é manifestada na autenticidade dos atos pessoais, sobretudo dos atos que se dão pelos gestos do corpo. Percebe-se que a pessoa só é adequadamente amada quando nela se vislumbra a presença do amor eterno, que é Deus.
Este mesmo princípio de justiça que se vive no genuíno amor esponsal, é o que confere autenticidade às relações interpessoais, ou comunitárias. O outro só é considerado justamente, respeitando-se a sua integridade pessoal – corpo, alma e espírito.
Desta maneira, o outro é acolhido na comunidade como dom, querido e amado por Deus porque se precisa da alteridade para que o ser humano se relacione com seus pares e se constitua como pessoa que encontra na vivência da justiça, através da vivência da “norma personalista”, o caminho da felicidade que consiste na participação pessoal e realista na comunidade humana.
O corpo da pessoa só aparece realmente nestas vivências do amor esponsal e da integração comunitária, que se assentam na verdade expressa na  “norma personalista”. Toda vivência que se alheia disto reduz a pessoa humana aquilo que ela não é, constituindo um pseudo modo de conhecer e oportunizando a frustração dos seres humanos mediante a imposição da moral utilitarista que inflaciona o ego do ser humano, fazendo-o desejar usurpar o ser Deus.
 Na visão ausente do fundamento da “norma personalista”, o que temos do corpo é uma ilusão. Então o corpo é reduzido à coisa porque o ser  humano é violentamente alienado de si, da sua condição pessoal que lhe revela a verdade.
A mentalidade anti-personalista é divulgada fortemente pela cultura mercadológica, propagando o individualismo e o hedonismo nos meios de comunicação social. Assim, o mercado capitalista “vende” ao ser humano a própria frustração existencial, tolhendo a sua capacidade de ver a realidade como de fato é, e impossibilitando a autenticidade da sua participação pessoal com os outros.
Esta alienação imposta à pessoa humana, sob a égide do mercado, fixa na mentalidade e no comportamento das pessoas a ética utilitarista, sendo uma “pedra de tropeço” para a humanidade, impedindo o ser humano de alcançar a excelência que consiste na autenticidade de sua liberdade pessoal. O jogo do mercado para se manter com o domínio sobre o mundo é o mecanismo da injustiça e da ilusão que alvita o caráter de sacralidade da pessoa.
Solução para este problema existencial do ser humano, pode consistir na resistência e combate às ideologias mercadológica e utilitarista, pelo víeis da educação de toda a pessoa humana. Pois no contexto atual, as pessoas precisam ser libertadas da miopia ideológica estabelecida sobre a concepção subjetiva de verdade, fortalecida hodiernamente no jogo do capitalismo pragmático, e ser conduzidas à contemplação da verdade que se dá no realismo, em particular no realismo cristão, e na formação do homem para assumir-se como pessoa humana, constituindo e participando da comunidade humana através de uma atuação consciente.
Esta solução apresentada exige da pessoa a educação para o amor, de acordo com o princípio da caridade contido na “norma personalista” de Karol Wojtyła. Esta norma proporciona a abertura transcendente do ser humano à presença do Ser divino no interior de toda a pessoa humana, suscitando no homem o amor oblativo pelo outro, o que dá sólido fundamento ao matrimônio e à comunidade humana.
Então, o corpo humano aparece tal como é: corpo da pessoa, que se expressa atuando coerentemente com a consciência ao se fazer dom para o bem do outro, zelando sempre pela integridade da personalidade de todo ser humano.





























REFERÊNCIAS


ABBANGANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5.ed. São Paulo: Martins fontes, 2007.

BENTO XVI. Deus caritas est. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html>. Acesso em: 01 nov. 2012.

BARTH, Wilmar Luiz. O homem pós-moderno, religião e ética. Teocomunicação, Porto Alegre, v.37, n.155, p. 89-108, mar. 2007.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

BERNSTEIN, Carl; POLITI, Marco. Sua santidade: João Paulo II e a História oculta de nosso tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

BÍBLIA online. Nova versão internacional. Disponível em: <http://www.bibliaonline.com.br/nvi>. Acesso em: 01 nov. 2012.

BURGOS, Juan Manuel. La filosofia personalista de Karol Wojtyła. Notes et documents, Madrid, n.6, p.53-64, 2006. Disponível em: <http://www.personalismo.net/PDF/0712/karolwoj.pdf>. Acesso em 08 jun. 2011.

CODO, Wanderley; SENNE, Wilson A. O que é corpo(latria). São Paulo: Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 2001.

DESCARTES, René. Discurso do método; As paixões da alma; Meditações. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 4. ed. Petropolis: Vozes, 2009.

HUSSERL, Edmund. A ideia de fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2000.

JOÃO PAULO II. Dom e mistério: por ocasião do 50º aniversário da minha ordenação sacerdotal. São Paulo: Paulinas, 1996.

______. Don y Misterio. Disponível em:<http://www.vatican.va/archive/books/gift_mystery/documents/archive_gift-mystery_book_1996_sp.html>. Acesso em 08 jun. 2011.

______. Fides et ratio: carta encíclica. 12.ed. São Paulo: Paulinas, 2009.

______. Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano. Bauru: Edusc, 2005.

______. Memória e identidade: colóquios na transição do milênio. Rio de Janeiro:

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 1992.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MESSORI, Vittorio; JOÃO PAULO II. Cruzando o limiar da esperança. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994.

MOHANA, João. Padres e bispos auto-analisados. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1968.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das letras, 1998.

PETRINI, João Carlos. Para compreender o amor humano: introdução à dição brasileira. In: JOÃO PAULO II. Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano. Bauru: Edusc, 2005, p.13-21.

PIOTROWSKI, Bogdan.  De la poética juvenil de Karol Wojtyła: valoración de sus poemas “MOUSIKÉ”. Pensamiento y cultura, Madrid, v.10, p.62 – 102, nov. 2007.

PLATÃO. Fédon. In: ___. Diálogos. São Paulo: Hemus ed., 1981, p. 99 – 178.

RABUSKE, Edvino. Antropologia filosófica: um estudo sistemático. 8.ed. Petropolis: Vozes, 2001.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do romantismo até os nossos dias. São Paulo: Paulus, 1991, v. 3.

SCHELER, Max. A posição do homem no cosmos. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2003.

SCHELER, Max. A reviravolta dos valores. Petrópolis: Vozes, 1994.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação: III parte; Crítica da filosofia kantiana; Parerga e Paralipomena. São Paulo: Abril cultural, 1980. (Os Pensadores).

SILVA, Paulo Cesar da .A antropologia personalista de Karol Wojtyła: pessoa e dignidade no pensamento de João Paulo II. Aparecida: Idéias e letras, 2005.

STORK, R. Yepes; ECHEVARRIA, J. Aranguren. Fundamentos de Antropologia: um ideal da excelência humana. São Paulo: Instituto Raimundo Lúlio, 2005.

TOMAS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica: primeira parte questões 1-49. 2.ed. Porto Alegre: Escola S. T. S. Lorenço de Brindes, 1980.

VAZ, H. C. de Lima. Antropologia filosófica. 7. ed. São Paulo: Loyola, 2004,v.1.

WOJTYŁA, Karol. A fé segundo São João da Cruz. Disponível em: <http://www.sophia.bem-vindo.net/tikiindex.php?page=Wojtyla+Subida+Unio>. Acesso em: 01 nov. 2012.

______. A loja do ourives. São Paulo: Loyola, 1980.

______. Amor e responsabilidade: estudo ético. São Paulo: Loyola, 1982.

______. El hombre y su destino: ensayos de antropología. 3. ed. Madrid : Palabra, 2005.

______. Max Sheler e a ética cristã. Curitiba: Champagnat, 1993.

______. Mi visión del hombre: hacia una nueva ética. 7. ed. Madrid: Palabra, 2010.

______.Persona y acción. Madrid: Palabra, 2011.




[1]  O amor oblativo, seguindo o modelo de Jesus Cristo que se entregou no sacrifício da cruz pela redenção da humanidade, consiste em amar ao ponto de doar-se a si mesmo, inclusive entregando a vida se necessário, pelo bem da pessoa, ou causa, amada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário