terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte 6)

5 A ÉTICA WOJTYLIANA DO AMOR


A ética do amor, na filosofia de Karol Wojtyła, concentra-se no amor esponsal entre homem e mulher, e tem por base a inviolável dignidade da pessoa humana e o preceito cristão de amar ao próximo. Este preceito é sintetizado no conceito de Norma personalista. O conceito wojtyliano de Norma personalista é desenvolvido em Amor e responsabilidade (1960). Nessa obra Wojtyła trata da ética personalista a partir do amor entre homem e mulher, primando pela interioridade da pessoa, dada por Deus mediante a maturidade e a responsabilidade, ressaltadas na visão realista do amor. Merecem destaque neste capítulo, as produções de Karol Wojtyła que precederam e sucederam a obra Amor e responsabilidade. Tais são: “A loja do ourives” (1960), no campo artístico, e a Teologia do corpo (1979 – 1984), no campo teológico, por estarem intimamente associadas à ética do amor esponsal e ao enfoque dado ao corpo humano, pelo filósofo polonês.


5.1 “A loja do ourives”: teatro do amor


Trata-se de uma peça teatral de Wojtyła, composta no estilo do teatro rapsódico e publicada em 1960, sob o pseudônimo Andrzej Jauwien. Esta peça teatral é constituída por três atos, intitulados, respectivamente: Os avisos; O esposo; e Os filhos. Cada personagem da trama, declama os fatos que experimentou na sua história de vida.
Em Os Avisos, os personagens Teresa e André contam como noivaram. Relembram, como se conheceram, a atração que surgiu entre ambos e, que foram amadurecendo enquanto amigos, inclusive citando fragmentos das suas cartas. Relembram um passeio com o grupo de amigos, numa tarde pelas montanhas, quando se depararam com um fenômeno que interpretaram como aviso ou presságio. Expressam, também, o momento em que foram à loja do ourives encomendar as alianças para o seu casamento, quando escutaram as palavras do ourives:

O peso destas alianças de ouro/ - disse - não é o peso do metal./ É o peso específico do ser humano,/ de cada um de vocês/ e de vocês dois juntos./ Ah! O peso próprio do homem,/ o peso específico dum ser humano!/ [...] É este o peso da gravidade constante/ ligada ao nosso breve vôo (WOJTYŁA, 1980, p.20).

 O coro declama, em seguida, o enlace amoroso de Teresa e André, quando a vitrine da ourivesaria adquire uma dimensão de eternidade para os noivos.
O Esposo é o segundo ato. Neste, Ana fala do arrefecimento de seu amor por seu marido, Estevão; expressando a indiferença de seu marido para consigo, mesmo depois de terem três filhos. Quando Ana passeia pelas ruas em busca de um novo amor, encontra Um Interlocutor Casual, que se denomina Adão, com quem fala de sua situação amorosa. Então, Adão lhe dá conselhos a respeito do amor humano. Este encontro se dá depois de uma tentativa fracassada, na qual Ana tentou vender sua aliança nupcial para o velho ourives. Após esta frustrada tentativa, Ana tenta chamar a atenção de outros homens, que possam lhe dar afeto, porém Adão “a acorda” desta fantasia, lembrando-lhe, a parábola evangélica das virgens, umas prudentes e outras imprudentes[1], com suas lâmpadas a espera do esposo. Então Adão se refere ao esposo que passa pela rua, em quem Ana reconhece a face de Estevão:

Oh! Ana, como será que vou conseguir persuadi-la de que, além de todos estes amores que nos enchem a vida – existe o Amor. O Esposo passa por esta rua e passa por todas as ruas! Como será que vou conseguir persuadi-la de que a Esposa é você?( WOJTYŁA, 1980, p.45).

 O Coro e Estevão fazem um intervalo ao declamarem um poema sobre o amor humano, onde se ressalta as figuras das virgens e do esposo, bem como as, de Ana e de Estevão. Ana conclui o ato, com palavras de esperança, derivadas de ter reconhecido no rosto do esposo, a face do seu marido. 
O ultimo ato, denominado Os Filhos, traça a história de amor entre Cristovão, filho de Teresa e André, e Mônica, filha de Ana e Estevão. Teresa expressa sua preocupação com o namoro de seu filho com Mônica, que aparenta ser tímida e ensimesmada; Teresa se preocupa, sobretudo, por ter sido mãe e pai para Cristovão, após a morte de André na guerra. Tal ato mostra a problemática de Mônica, que recebe o reflexo da crise matrimonial de seus pais. No entanto, com o amor de Cristovão, Mônica tem a possibilidade de passar do tímido medo ao dom do amor, um amor que a cura.
No casamento de Mônica e Cristovão, Adão aparece como amigo íntimo do falecido André e, por conseguinte, de sua família, ali reencontra Ana e transmite-lhe novos conselhos a respeito do amor. Estevão se dá conta das negativas consequências, oriundas da frieza de seu amor para com Ana, na problemática afetiva de Mônica, que a partir do seu casamento se torna livre para amar. Diz Estevão:

Naquele momento – pela primeira vez em tantos anos – senti que era necessário dizer alguma coisa em que pusesse toda a minh’alma. Queria dizê-lo exatamente a Ana (isto seria talvez uma prova de auto-acusação, ou melhor, uma prova da divisão da culpa entre nós dois). (WOJTYŁA, 1980, p. 72).

Estevão reaproxima-se de Ana, confessando que ambos perderam muitas oportunidades ao esquecerem, ou deixarem esfriar, o seu amor de outrora.


5.2 A obra ética “Amor e responsabilidade”


A obra ética “Amor e responsabilidade”, publicada por Karol Wojtyła em 1960, é fruto da necessidade pastoral de justificar a moral católica a respeito da convivência matrimonial do casal cristão, numa linguagem condizente com o pensar do homem do século XX. Primando pelo conceito cristão de amor, tal obra trata da ética sexual, de modo a fazê-la depender do valor grandioso que é a pessoa humana, pois a “[...] ordem pessoal é a única plataforma apropriada para todas as reflexões no campo da ética sexual” (WOJTYŁA, 1982, p.11). Para tanto, no prefácio à segunda edição dessa obra, Wojtyła faz a distinção entre os conceitos de moral e de ética. Assim, a moralidade está vinculada às ações voluntárias e racionais da pessoa humana ao passo que a ética se circunscreve no campo do pensamento filosófico como um ponderar sobre a bondade ou maldade dos fatos morais.

A moral é a esfera distinta da existência humana, e particularmente da atividade humana relacionada com o uso da razão e da livre vontade. Os atos humanos, com base no uso da razão e na livre vontade, têm o valor moral, são moralmente bons ou maus. A ética, como a esfera distinta do pensar filosófico, baseia-se no fato da moral para buscar, antes de tudo, a fundamentação para o bem e para o mal moral (WOJTYŁA, 1982, p.14).

Wojtyła sistematizou a obra “Amor e responsabilidade” em cinco capítulos, intitulados respectivamente: A pessoa e o impulso sexual; Pessoa e amor; Pessoa e castidade; Justiça em relação ao Criador; e Sexologia e ética. Como textos mais condizentes com o interesse da presente pesquisa, dar-se-á enfoque nos dois capítulos iniciais dessa obra ética.


5.2.1  A pessoa e o impulso sexual


Ao analisar a palavra “usar” Wojtyła parte da incomunicabilidade e da inalienabilidade da pessoa humana. Estas características se originam da interioridade do ser humano, manifestada na autodeterminação e no livre arbítrio, pois “Ninguém pode querer em meu lugar. Ninguém pode substituir o meu ato de vontade pelo seu” (WOJTYŁA, 1982, p.22). Partindo da evidencia da pessoa humana como sujeito e objeto da ação, Wojtyła evidencia dois significados da palavra “usar”.
 No primeiro significado, usar equivale à instrumentalização de qualquer coisa para se alcançar um fim visado na ação; quanto ao emprego desta instrumentalização nas pessoas humana, o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) já formulara na obra “Fundamentação da metafísica dos costumes”, o princípio de não instrumentalização do sujeito se refere à pessoa humana sempre como fim de toda ação humana; este princípio é reformulado de modo positivo por Wojtyła para fundamentar todas as ideias de liberdade humana, que sejam corretamente concebidas, escrevendo: “todas as vezes que no teu procedimento uma pessoa é objeto da tua ação, deves lembrar que não podes trata-la como instrumento, mas deves considerar que ela mesma tem ou deveria ter o seu próprio fim” (WOJTYŁA, 1982, p.27). Esta reformulação positiva põe a pessoa humana, sempre como fim em si mesmo e dá azo, nas relações interpessoais ao vinculo do bem comum e ao amor que se opõe a este primeiro conceito da palavra usar, dado que “[...] o amor se identifica com uma particular disposição de subordinar-se ao bem, que [...] constitui ‘ a humanidade’, e mais precisamente o valor da pessoa humana” (WOJTYŁA, 1982, p. 30).
O segundo significado da palavra “usar”, está associado à vivência do prazer ou do enlevo, que em várias modalidades está vinculado à ação. Deste modo, na convivência sexual do casal humano, o outro jamais poderá ser reduzido a instrumento para se alcançar o prazer, inclusive no seu corpo, porém deve está na relação sempre como fim digno de ser amado na sua personalidade; caso contrário, ele estaria sendo ferido em seu valor pessoal. Vinculado à este segundo significado, se encontra a ética utilitarista que “[...] na sua formulação definitiva, o princípio da utilidade (principium utilitatis) exige o máximo de prazer e o mínimo de sofrimento para o maior número possível de homens” (WOJTYŁA, 1982, p.34).
Nesta lógica utilitarista, cada pessoa humana deve estar como sujeito que instrumentaliza o outro, para obter o máximo de prazer, mas, simultaneamente, também é objeto a ser instrumentalizado pelos outros a fim de lhes conferir prazer. Nesta forma ética, o prazer é considerado sinônimo de felicidade, mas esta é uma felicidade subjetiva. Wojtyła critica ferrenhamente o princípio utilitarista, sobremaneira quando aplicado nas relações amorosas entre homem e mulher, pois o utilitarismo afirma implicitamente que o amor só existe na satisfação hedônica do sujeito que instrumentaliza a outra pessoa na relação amorosa. Esta prática dá azo ao egoísmo e degenera a relação amorosa entre o casal humano, que logo se transformará em ódio.
Para Wojtyła, o amor só é perene se fundado na objetividade do bem comum resultante da comunhão pessoal. “Este objetivo é o fundamento do amor, e as pessoas que o escolhem a ele se subordinam simultaneamente. Graças a ele unem-se entre si com o vínculo objetivo do amor, que lhes permite libertar-se do subjetivismo e do inevitável egoísmo que nele se oculta. O amor é a comunhão das pessoas”( WOJTYŁA, 1982, p.36).
Fundamenta-se, Wojtyła no mandamento do amor dado por Jesus Cristo aos seus discípulos, exigente do amor recíproco entre as pessoas, incluindo aos inimigos, que devem ser perdoados. Um amor que se funda na perfeição de Deus que concede o bem a todos, sejam justos ou ímpios, sem fazer distinção de pessoas, o que  é a perfeição moral[2]. Trata-se para nosso filósofo, de uma norma de alto nível, encontrada em patamar mais excelente em comparação ao do princípio utilitarista. Sobre este fundamento, Karol Wojtyła formula o princípio e a norma, personalistas, quando afirma:

Esta norma, no seu conteúdo negativo, afirma que a pessoa é um bem, o qual não está de acordo com a utilização, tendo em vista que não pode ser tratada como objeto de uso, portanto como um meio. Paralelamente aparece o conteúdo positivo da norma personalista: a pessoa é um bem tal que só o amor se relaciona com ela própria e plenamente (WOJTYŁA, 1982, p.38).

Neste sentido, ao colocar a pessoa humana como fim em si de todos os atos da alteridade e absolutamente digna de ser amada, por seu caráter pessoal, Wojtyła pensa que seguir tal norma é estabelecer, nas relações humanas, a justiça para com a pessoa.
Interpretando o impulso sexual, Wojtyła distingue os conceitos de “instinto” e de “impulso”; é, pois, o “instinto” um modo de agir peculiar dos animais irracionais; este modo de ação é caracterizado pela espontaneidade e pela irreflexão. Por outro lado, o “impulso”, interpretado de maneira mais próxima à realidade, “[...] é uma orientação natural e inata das tendências humanas, em virtude do qual todo o seu ser se desenvolve e aperfeiçoa interiormente” (WOJTYŁA, 1982, p.43). Assim, na pessoa humana, o impulso sexual corresponde aos fatos da vida afetiva e sensitiva, que não sofrem interpretação da vontade.
O impulso sexual, quando tem sua orientação natural na pessoa humana, visa outra pessoa do sexo oposto, na sua totalidade pessoal. Nisto, o impulso sexual traz a “possibilidade de amar” dado que o amor é próprio do ser pessoal. Nesta senda o impulso sexual deve ser orientado pela própria pessoa através da faculdade de autodeterminação para  possibilitar a superação do “determinismo biológico”, assente que o impulso sexual no campo psicológico, não consegue determinar totalmente o ser humano, deixando espaço à ação de sua liberdade, para que ele mesmo se determine.
A finalidade natural do impulso sexual[3] é a procriação, como viva concretização da finalidade do amor entre homem e mulher. Nisto, o objetivo deste impulso é a perpetuação da existência humana, tema este que transcende os conhecimentos biológico e psicológico, tornando-se objeto de reflexão para a filosofia e para a teologia. “Homem e mulher, pela procriação, pelo fato de participarem na obra do nascimento dum novo ser participam também, a seu modo, na obra da criação [...] A relação sexual entre o homem e a mulher é basicamente uma relação corporal, embora deva ter como origem um amor espiritual” (WOJTYŁA, 1982, p.50).
Assim, é sempre no amor – conforme a norma personalista – que os cônjuges devem procriar, contribuindo com o Criador para a existência de uma nova pessoa humana. Esta fecundidade do amor esponsal deve ser continuada na obra da personalização do novo ser humano filho do casal, através da educação alicerçada no amor, tomando por base que a educação é peculiar a natureza humana. “A educação é uma criação que tem como objeto a pessoa [...] tudo o que se encontra naturalmente no homem, objeto de educação, constitui para os educadores a matéria que o seu amor deve plasmar” (WOJTYŁA, 1982, p.51).
Karol Wojtyła se opõe as interpretações extremistas ao impulso sexual. Representadas, estas, primeiro pelo rigorismo, ou puritanismo, de matriz religiosa que concebe o Criador como instrumentalizador da espécie humana, inclusive para o fim da continuidade da existência humana pelo impulso sexual, o que daria legitimidade para que o homem instrumentalizasse a mulher, com o fim de conseguir a prole. A segunda é representada pela teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939), alicerçando-se no princípio do impulso para a deleição (líbido-trieb) no ser humano, colocando o prazer como fim primaz do impulso sexual e relegando a procriação a segundo plano. Esta interpretação nega a existência da interioridade pessoal e acaba por nivelar o ser humano ao patamar do psiquismo animal. Associada a esta interpretação, está a doutrina malthusiana, de Tomás Malthus (1766-1834), que salientou a questão do aumento da população mundial e o problema da escassez de alimentos para a mesma população, promovendo, a partir disto, a campanha a favor do controle de natalidade e, ao mesmo tempo, fortalecendo a interpretação freudiana sobre o impulso sexual, colocando-o numa esfera técnica ao invés da esfera ética, conforme o princípio utilitarista. Esta situação é decisivamente combatida pela moral cristã – na Igreja católica, com a qual está de acordo o pensamento ético de Wojtyła.


5.2.2 Pessoa e amor


No segundo capítulo, Wojtyła faz a análise geral da palavra “amor”. Tomando como ponto inicial o fato de que “[...] o amor é sempre uma relação recíproca entre pessoas, que, por sua vez, é baseada na atitude individual e comum delas a respeito do bem” (WOJTYŁA, 1982, p.67). Neste rumo, nosso pensador aplica esta análise geral do amor, nas relações entre homem e mulher.
O amor manifesta-se como “agrado”, quando a pessoa agradável é vista sempre como um bem, e se este amor nasce dos sentimentos, vinculando o conhecimento e a vontade. Deste modo na relação entre homem e mulher, quando o homem é o sujeito do agrado é porque “[...] a mulher se apresenta no campo da visão do homem como um bem, que suscitou o agrado” (WOJTYŁA, 1982, p.69). As emoções dão orientação aos atos cognoscitivos, isto pode dar margem ao subjetivismo, quando o sujeito do agrado constrói ideias não correspondentes à realidade a respeito da pessoa que é objeto do seu agrado; tornando-se – este subjetivismo – prejudicial ao desenvolvimento do amor. No sentido verdadeiro, que dá lugar à própria beleza, afirma nosso filósofo: “‘agradar’ significa apresentar-se como um bem, mais ainda: como o bem que se é” (WOJTYŁA, 1982, p.72).
O amor como “concupiscência”, constitui-se como “[...] uma cristalização da necessidade objetiva de um ser orientado para o outro, por ver nesse outro um bem e um objeto de desejo” (WOJTYŁA, 1982, p.73). Deste modo, o amor concupiscível nasce da solidão e da incompletude que experimentam tanto o homem como a mulher, um necessitando do outro para completar o próprio ser. Nesta orientação, a concupiscência aparece como desejo de possuir a pessoa de sexo adverso, dado que ela é vista como um bem agradável. Tal relação dar margem a um comportamento utilitário, em face da pessoa que é objeto de desejo; porém se esta utilidade prescindir do valor do outro enquanto pessoa, este amor se torna inautêntico.
No amor como “benevolência”, apesar deste não acabar com o caráter concupiscível do amor entre homem e mulher, leva o eros[4] ao estado de perfeição, negando-se como egoísmo e se assumindo genuinamente como amor. Pois na benevolência, nunca “[...] é suficiente desejar somente a pessoa como um bem para si; é necessário, além disso – e acima de tudo -, desejar ao mesmo tempo o bem dela” (WOJTYŁA, 1982, p.75). Nesta relação benevolente, a pessoa amada só será um bem para a pessoa que a ama, se aquela o quiser. A benevolência manifesta que a atitude concupiscível jamais esgota o sentido do amor. A partir da atitude benevolente, entre homem e mulher se pode pensar no amor recíproco entre eles. Quando esta benevolência é mútua, afirma Wojtyła, não são mais dois amores que existem, no entanto os amores que partem do homem e da mulher se fundem num vínculo de amor, que se constitui como bem comum dos amantes. A harmonia no amor conduz ao estabelecimento da mútua confiança, reveladora da maturação dos amantes que, por seu turno, superaram o ciúme, este que é oriundo da concupiscência. “Para que o amor alcance a sua plenitude, é preciso que o caminho que conduz da mulher ao homem se cruze com o que vai do homem à mulher. Um amor recíproco cria uma base mais imediata para que de dois ‘eus’ surja um ‘nós’. Nisto consiste o seu dinamismo natural” (WOJTYŁA, 1982, p.77).
Tratando da simpatia, camaradagem e amizade, na relação pessoal entre homem e mulher, o pensador polonês, diz que a simpatia está alicerçada na emoção e na afetividade, quando une homem e mulher, porém sem maior intervenção da decisão e da vontade, o que pode levar esta relação a cair no subjetivismo e na efemeridade. Para que isto não ocorra é necessária a existência da amizade ao lado da simpatia, pois a amizade “[...] consiste num compromisso maduro da vontade em relação a outra pessoa visando o seu bem” (WOJTYŁA, 1982, p.82). Deste modo, colocar a amizade lado-a-lado com a simpatia resulta na reta educação do amor, inclusive pondo a vontade e a decisão ao lado do vínculo afetivo-emocional para conferir objetividade e maturidade à relação.  A camaradagem, ao contrário da simpatia, é dada na vida comunitária e na objetividade; quando se travam relações de coleguismo ao se desempenhar atividades num mesmo grupo social, são os casos do trabalho e do  estudo escolar.
O amor esponsal, incluindo e aperfeiçoando os anteriores níveis de amor evidenciados acima, consiste na livre entrega do próprio ser ao outro-amado. De fato, é neste amor entre homem e mulher que se baseia o matrimônio. “Consiste na entrega da própria pessoa. A sua essência é a entrega de si mesmo, do próprio ‘eu’[...] ‘Dar-se’ é algo mais do que só ‘querer-bem’, ainda que, por causa disto, o outro ‘eu’ se tornasse quase o meu próprio, como na amizade” (WOJTYŁA, 1982, p.85). No amor esponsal, tem-se a vigência de um paradoxo, no qual as pessoas, naturalmente inalienáveis e tendentes ao próprio aperfeiçoamento, entregam-se mediante o amor esponsal à pessoa amada, saindo do seu próprio “eu” e, ao mesmo tempo, enriquecendo-se e desenvolvendo-se no ato dessa entrega. Nesta esteira, o matrimônio aperfeiçoa o amor esponsal, conduzindo homem e mulher à maturidade, e exigindo a fidelidade entre os cônjuges.
Fazendo a análise psicológica do amor heterossexual, Wojtyła ressalta os preponderantes papéis da percepção e da emoção nesta relação. A percepção relaciona-se à apreensão da imagem do objeto pessoal do amor, ao passo que a emoção, vincula-se sensitivamente ao valor deste objeto pessoal. Percepção e emoção dão ensejo à sensibilidade, enfocando o corpo do outro como possível objeto de uso que satisfaça o impulso sexual. Porém, não sendo pura a sensualidade, ela é sempre aberta à transformação dada a partir dos valores; isto não impossibilita a vivência da norma personalista como orientadora da sensualidade, pois o corpo participa do composto humano, não se alheando do valor e da dignidade humanas.
A sensualidade em si, não é amor. “A orientação para o valor sexual, do ‘corpo’ como objeto de uso, exige sem dúvida uma interrogação: deve ser inserida num relacionamento integral e maduro a respeito da pessoa. Sem isso não há amor” (WOJTYŁA, 1982, p.96). A afetividade, ao contrário da sensualidade, aparece como  ausência da concupiscência num primeiro momento. No amor afetivo se exterioriza as ações afetuosas e surge entre as pessoas envolvidas o desejo de se estar a sós e sempre juntos, dado a agradabilidade do afeto recíproco. Existe, então, uma influência recíproca entre as esferas: amor afetivo, de um lado e, memória e imaginação, de outro; dando, inclusive, margem ao subjetivismo. Porém o amor afetivo conserva o aspecto da permuta e da criação de valores entre as pessoas envolvidas nele.
Karol Wojtyła se expressa sobre a questão da integração do amor entre o casal. Amor este, que é dado sobre os alicerces da verdade objetiva e da liberdade pessoal – que levam tal amor à maturidade que vigora no compromisso do bem comum dos amantes e dinamiza-se pela autodeterminação das pessoas comprometidas entre si. Deste modo, “a capacidade de conhecer a verdade possibilita ao homem a autodeterminação, ou seja, a decisão autônoma sobre o caráter e a orientação dos próprios atos, em que consiste precisamente a liberdade” (WOJTYŁA, 1982, p.101).
Elaborando uma análise ética do amor do casal humano, Wojtyla o faz à luz da verdade objetiva. Ele dá, a princípio, ênfase à vivência da  virtude no amor, posto que o sentido ético deva orientar sempre a direção psicológica do amor, a fim de que esta esteja sempre associada ao verdadeiro bem.  Este bem genuíno se manifesta no compromisso virtuoso do amante para com a pessoa amada, autodeterminando-se e assumindo a obrigação da responsabilidade para com o outro no bem comum do casal, inclusive podendo se definir naturalmente no matrimônio.
Esta instituição se fundamenta na primazia do valor da pessoa humana, sobretudo no que diz respeito à sua interioridade. Pois, “o valor da pessoa está ligado ao seu ser total e não apenas à sexualidade, que é somente a propriedade do ser” (WOJTYŁA, 1982, p.107). Dizendo respeito a isto, o amor esponsal acontece não apenas como sentimento, porém, como virtude fundada na vontade. Neste sentido, o matrimônio tira as pessoas de sua peculiar intangibilidade, pelo fato de quererem se doar totalmente à pessoa amada, na reciprocidade do amor e da pertença, que se expressa, sobretudo na mútua entrega de si no ato sexual-procriativo. A este, Wojtyła chama “convivência matrimonial”, por considerá-lo legítimo apenas dentro do matrimônio. Posto que o matrimônio institua publicamente o amor esponsal do casal, com os compromissos de fidelidade e responsabilidade, recíprocos.
Nesta esfera ética, o amor se afirma como objetividade que orienta a subjetividade dada no âmbito psíquico do casal. Desta verdade do amor esponsal, emanam as necessidades de educação da prole e da juventude em geral para a acertada vivência do amor entre homem e mulher, pautando-se na vontade livre que se torna responsável à medida que prioriza o valor da pessoa humana mediante o compromisso ético, dado que

[...] há no amor uma responsabilidade, assumida com a pessoa que se atrai à estreita comunhão do ser e do agir e que, por causa de sua entrega, passa a ser de algum modo a nossa propriedade. E por isso também se assume uma responsabilidade pelo próprio amor [...] Mas só pode compreendê-la aquele que possui a plena consciência do valor da pessoa (WOJTYŁA, 1982, p.113-114).

Por tudo isso, o amor esponsal, no sentido genuíno, está alicerçado nos valores espirituais e tem a missão de zelar pelo valor da pessoa na sua totalidade – corpo, alma e espírito. Nisto, o amor do casal, de modo autêntico, está fundado na objetividade das coisas e das pessoas humanas, que recebem seus, ser e existir do próprio Deus. Decorrendo disto que, para o amor esponsal e a instituição matrimonial se consolidarem é indispensável a prioridade que os cônjuges, e a partir deles a família,  devem dar ao próprio Deus, que é Amor[5], como concorda Wojtyła.


5.3  O papa Wojtyła e a “Teologia do corpo”


Nos primeiros anos de pontificado de Karol Wojtyła, como papa João Paulo II, à frente da Igreja Católica Romana, este pontífice-filósofo deu continuidade à ênfase ao amor entre o casal cristão; privilegiando, a partir de seu ministério de Sumo pontífice, a linguagem teológica, sem se desfazer da contribuição da filosofia, como se observa em seus pronunciamentos e documentos, pontifícios; nestes o papa Wojtyła sempre recorreu aos conceitos que outrora elaborou nas suas reflexões e publicações filosóficas.
No tocante ao tema “amor conjugal”, sobressaem-se as reflexões de João Paulo II em quatro publicações mais enfáticas, a saber: a exortação apostólica Familiaris Consortio (1981), sobre a missão da família cristã no mundo atual; as catequeses sobre o amor humano, Homem e mulher o criou (1985), as quais o mesmo pontífice também intitulou “Teologia do corpo”; a carta encíclica sobre a dignidade e a vocação da mulher na Igreja e no mundo, Mulieris Dignitatem(1988) e a Carta às famílias(1994), emanada por ocasião da celebração do Ano da família, na Igreja Católica.
Para acenarmos às reflexões sobre o corpo e, o amor esponsal, no magistério de João Paulo II, faz-se interessante privilegiarmos as “Catequeses sobre o amor humano”, que sintetizam o pensamento de nosso pontífice-filósofo sobre esta temática. Este documento é composto por 129 discursos do papa Wojtyla, proferidos nas tradicionais audiências pontifícias das quartas-feiras, que foram compreendidas no período de 5 de setembro de 1979 à 28 de novembro de 1984. Para o estudioso da Teologia do corpo, João Petrini  (2005, p.13), “Homem e Mulher o Criou esboça a imagem do homem e da mulher, com extraordinária aderência à realidade. O autor consegue elucidar a condição humana, a grandeza e a dignidade do homem e da mulher e os caminhos para uma realização possível, ainda durante a aventura terrena”.
As “Catequeses sobre o amor humano” são sistematizadas em seis ciclos, a saber: O princípio (I); A redenção do corpo (II); A ressurreição da carne (III); A virgindade cristã (IV); O matrimônio cristão (V) e; Amor e fecundidade (VI).
No ciclo “O princípio”, João Paulo II se remonta as narrativas bíblicas do livro do Gênesis quando Deus criou o homem e a mulher e os abençoa como casal para que administrem com zelo a criação, cresçam e multipliquem-se. É uma figuração muito significativa, o próprio Deus plasmar da terra o corpo de Adão – o primeiro homem – conferindo dignidade pessoal a este corpo frágil, proveniente da terra na sua matéria,  quando insufla em suas narinas o hálito divino que dá a vida.
Na criação de Eva, a primeira mulher, que é destinada a constituir uma só carne[6] com Adão, evidencia-se que a mulher, “Mãe dos viventes”, fora plasmada pelo Criador a partir do lado, ou do coração de Adão, donde fora tirada por Deus durante o profundo sono do primeiro homem, ou seja, na  vivência onírica dele, onde se dão os desejos mais profundos do seu Inconsciente, conforme a Psicanálise.  
É, para João Paulo II, proeminente que antes da criação da mulher, o homem estava solitário e triste, no jardim do Édem. Não obstante estando Adão em constante relação com Deus e com a criação, apenas ficara feliz quando contemplou a mulher, esta que lhe arrancara da sua solidão existencial, através da fecundidade no amor, que lhe conferiu a identidade pessoal. Tem-se a hermenêutica desta passagem bíblica:

Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada ‘mulher’ porque foi tirada do homem” (Gn. 2,23). Deste modo o homem (masculino) manifesta, pela primeira vez, alegria e até exultação, sendo que anteriormente não tinha motivo para isso, por causa da falta dum ser semelhante a si. (JOÃO PAULO II, 2005, p.80)[7].

A partir do encontro de Adão com Eva, mediante a própria benevolência do Criador, o ser humano é feito semelhante a Deus através da “comunhão pessoal”, pois Deus se revela como comunhão de três pessoas divinas, sendo a terceira o próprio amor. Portanto, na narração bíblica de Gênesis,  Adão e Eva são duas pessoas, homem e mulher, unidos reciprocamente no amor esponsal. Ainda neste ciclo, Sua Santidade dá ênfase ao corpo como sacramento de doação pessoal na comunhão entre homem e mulher, ou seja, ressalta o significado esponsal do corpo humano, como dom: “O corpo, que exprime a feminilidade ‘para a masculinidade e, vice-versa, a masculinidade ‘para’ a feminilidade, manifesta a reciprocidade e a comunhão das pessoas. Exprime-a por meio do dom como característica fundamental da existência pessoal” (JOÃO PAULO II, 2005, p.98).
No ciclo catequético “A redenção do corpo”, João Paulo II trata da redenção do homem e da mulher dada em Cristo, após o pecado original. A partir do modelo Jesus cristo que se doou inteiramente, no drama da cruz, para redimir a Igreja – sua esposa; os cônjuges têm o exemplo a seguir no seu amor esponsal. Para tanto, homem e mulher devem se educar a partir do paradigma voluntário da redenção do coração para atuarem administrando seu impulso concupiscível, orientando-se para a lógica do se fazer dom na fidelidade conjugal, aí a Teologia do corpo assumiria, na pratica, um caráter pedagógico.

Se o apelo de Cristo ao “coração” humano e, ainda antes, a sua referência ao “princípio” nos permite construir ou pelo menos esboçar uma antropologia, que podemos chamar “teologia do corpo”, tal teologia é ao mesmo tempo pedagogia. A pedagogia tende a educar o homem, pondo diante dele as exigências, motivando-as, e indicando os caminhos que levam às suas realizações (JOÃO PAULO II, 2005, p.258).

O ciclo “A ressurreição da carne”, aborda a presença cristã da ressurreição da pessoa humana na sua totalidade – corpo, alma e espírito; como fruto e participação na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na doutrina do apóstolo Paulo, no tocante ao corpo, trata-se de uma passagem dum corpo fraco que se tornará em Cristo, um corpo cheio de força ou corpo glorificado.

Assim, portanto, a antinomia “fraco-cheio de força” refere-se, explicitamente, não tanto ao corpo considerado na sua corporeidade. Só no quadro de tal constituição pode o corpo tornar-se “espiritual”; e tal espiritualização do corpo será a fonte da sua força e incorruptibilidade (ou imortalidade) (JOÃO PAULO II, 2005, p.308).

No ciclo “A virgindade cristã”, põe-se o celibato clerical e o voto de castidade, não como uma negação do amor esponsal entre homem e mulher, porém, antes como uma realização deste amor esponsal numa entrega transcendente: uma entrega total da pessoa a Deus. Tal entrega a Deus, não se distancia da vocação pessoal a ser dom aos outros,  que se realiza no corpo; porque a pessoa consagrada entrega a sua vida pelo bem da comunidade cristã, em vista da construção do Reino de Deus, que é regido pelo princípio do amor que se entrega em vista do bem dos outros.
Neste sentido a renuncia, efetuada pela pessoa consagrada, ao casamento manifesta aos casais cristãos que eles não se bastam a si mesmos para preencherem o vazio existencial que possuem e serem felizes; pois mesmo no matrimônio, continua essa carência interior tanto no homem como na mulher[8]. Pois esta carência humana só pode ser suprida por Deus, na eternidade da glória eterna, assim é Deus o verdadeiro esposo da alma humana[9]. Assim, o celibato apostólico ou a virgindade consagrada, “[...] adquiriu o significado de um ato de amor esponsal, isto é, de uma doação esponsal de si, a fim de retribuir de modo particular o amor esponsal do Redentor; uma doação de si, entendida como renuncia, mas feita sobre tudo por amor” (JOÃO PAULO II, 2005, p.345).
O quinto ciclo, “O matrimônio cristão”, fundamenta a união esponsal dos cônjuges como imagem das alianças entre Deus e seu povo, tanto no Antigo como no Novo Testamento[10], neste quando o amor entre cristo e a sua Igreja, tornam-se o paradigma da união matrimonial entre os cristãos. Assim, João Paulo II, fala da linguagem do corpo que no casal humano mostra a vocação de fazer-se doação na entrega de si, de maneira total e recíproca pelo vinculo de amor, conforme o princípio da norma personalista, o que faz os esposos se descobrirem como imagem de Deus. “A ‘linguagem do corpo’ relida na verdade deve ser vista em concomitância com a descoberta da interior inviolabilidade da pessoa” (JOÃO PAULO II, 2005, p.454).
Por fim, o ciclo denominado “Amor e fecundidade”, em concordância com o magistério do Papa Paulo VI na encíclica Humanae Vitae[11], coloca a espiritualidade conjugal advindo do respeito pela obra de Deus. Deste modo o ato conjugal une intrinsecamente as finalidades, unitiva e procriativa; donde promanam o respeito absoluto pela pessoa e pela vida humana e a exigência da castidade no matrimônio, ao modo de períodos de continência, para proteger a dignidade do ato conjugal, dado no corpo humano.




[1] Segue-se, na integra, o texto desta parábola, extraído do evangelho segundo Mateus (Mt. 25, 1-13), na tradução Nova versão internacional: “O Reino dos céus, pois, será semelhante a dez virgens que pegaram suas candeias e saíram para encontrar-se com o noivo.
Cinco delas eram insensatas, e cinco eram prudentes.
As insensatas pegaram suas candeias, mas não levaram óleo consigo.
As prudentes, porém, levaram óleo em vasilhas juntamente com suas candeias.
O noivo demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram.
"À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo se aproxima! Saiam para encontrá-lo! ’
"Então todas as virgens acordaram e prepararam suas candeias.
As insensatas disseram às prudentes: ‘Dêem-nos um pouco do seu óleo, pois as nossas candeias estão se apagando’.
"Elas responderam: ‘Não, pois pode ser que não haja o suficiente para nós e para vocês. Vão comprar óleo para vocês’.
"E saindo elas para comprar o óleo, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial. E a porta foi fechada.
"Mais tarde vieram também as outras e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abra a porta para nós! ’
"Mas ele respondeu: ‘A verdade é que não as conheço! ’
"Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora!”
[2] Seguem-se as citações bíblicas que justificam esta apresentação da moral cristã, pesquisadas da tradução bíblica Nova versão internacional, conforme afirma Jesus Cristo, nas narrações dos evangelhos segundo João e Mateus: "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei a vós, que também vós vos ameis uns aos outros.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros". (João 13, 34-35), e "Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem;
para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos [...] Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial" (Mateus 5, 43-45. 48).
[3]  O impulso sexual é um dos impulsos que constituem o inconsciente do ser humano, a nível psicológico. Baseado nas teorias da Psicanálise com Sigmund Freud e em Joseph Nuttin (1909-1988), João Mohana (1925-1995) escreve acerca de três níveis de impulsos do Inconsciente, que também é denominado Id ou Impulso de desenvolvimento global: "Diariamente nós realizamos atos que se situam no nível psico-biológico da nossa vida; atos que se situam no nível psico-social; e atos que se situam no nível psico-espiritual. Nesses três níveis de nossa vida o impulso de desenvolvimento global se expande e aí desencadeia nosso comportamento. [...] No nível psico-biológico temos dois impulsos: o impulso de auto-conservação e o impulso sexual. [...] No nível psico-social de nossa vida temos dois impulsos: o impulso de sociabilidade e o impulso de auto-afirmação. [...] No nível psico-espiritual [...] também dois impulsos se manifestam: o impulso de cogitação do sentido da existência (que Victor Frankl denomina vontade de significação) e o impulso de auto-transcedência"(MOHANA,1968, p.16-18).
[4] Nome em grego da espécie de amor que Wojtyła conceitua como “concupiscível”. Sobre o amor-eros, escreveu o papa Bento XVI (Joseph Ratzinger) na encíclica “Deus caritas est” (2005), nº.3: “Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros”.
[5] Esta definição da essência divina, encontramo-la na primeira carta de João presente na Sagrada Escritura. Citamo-la conforme a tradução bíblica Nova versão internacional (I João 4, 16): “Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele”.
[6] Esta figura de linguagem diz respeito à união matrimonial e à procriação.
[7] Na citação, a sigla Gn. refere-se ao livro de Gênesis, na Sagrada Escritura.
[8] O papa Wojtyła tem esta convicção, fundamentado no testemunho dos casais que orientou desde o seu ministério sacerdotal.
[9] O nosso Papa-filósofo hauriu esta convicção da doutrina mística de São João da Cruz. Sobre esta, escreveu Wojtyła em sua tese de doutorado em teologia, A fé segundo São João da Cruz (1948):[...] esta união é uma comunicação que consiste na conformidade de vontades, progride pelo amor e pelo amor expressa seu aspecto psicológico. Tal amor possui, simultaneamente, capacidade transformadora.
Que entenderemos por ‘transformação’? São João da Cruz afasta imediatamente a possibilidade de uma interpretação panteísta: não se trata de uma transformação substancial ou essencial, mas de uma transformação participada.
[...] toda a teologia da comunicação sobrenatural pela graça e amor e da transformação participada. De maneira análoga, pois, a alma participa da comunicação sobrenatural pela graça e pelo amor e, em virtude deles acaba por transformar-se, por participação, na mesma luz de Divindade [...] Vemos que o Doutor Místico apresenta a união como o fim de todos os desejos da alma, como uma participação sobrenatural com Deus, como uma participação da Divindade por graça e amor. E que a força inata desta é capaz de crescer até a transformação, isto é, até a união transformadora com Deus.”
[10] Quanto a Sagrada Escritura, constituída por Antigo e Novo, testamentos, ensina a Igreja Católica na constituição Dei Verbum (1965), nº.11: “As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo , têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja.”
[11] O papa Paulo VI (Giovanni Montini), que governou a Igreja Católica de1963 a 1978, emanou esta polêmica encíclica sobre a vida humana e o controle de natalidade em 1968, evidenciando a postura moral da Igreja contra o aborto e os métodos contraceptivos artificiais, entre outras posições acerca da moral sexual defendida pela Igreja. Karol Wojtyła/João Paulo II construiu sua ética do amor e a teologia do corpo de modo coerente com este documento pontifício de seu antecessor.

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