terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte 7))

6 A DIGNIDADE PESSOAL DO CORPO HUMANO


Partindo da ética do amor de Karol Wojtyła, este capítulo põe em destaque a dignidade do corpo humano. Segundo o pensamento antropológico de Wojtyła, o corpo da pessoa humana é o “corpo próprio” do ser humano – de acordo com a fenomenologia; mais que um simples instrumento a serviço da alma, como entendera a filosofia clássica.
Na antropologia wojtyliana o corpo é integrado na ação da pessoa pela liberdade de autodeterminação humana, mesmo com a reatividade corpórea e os impulsos, que são ligados ao corpo. Neste sentido, a pessoa humana participa com a sua ação da construção do mundo e da sociedade e, comportando-se com o pudor que é o cuidado próprio do corpo, abre-se ao cuidado dos outros na alteridade, mediante a orientação presente na norma personalista.


6.1 Do corpo instrumento ao corpo próprio


Na concepção clássica do corpo humano, representada pelo paradigma platônico, o corpo é conceituado como “instrumento da alma”, dado que o corpo é perecível e a alma é eterna. Então, a alma deve impor uma ética ao corpo a fim de que o ser humano seja justo e sua alma, pela felicidade alcançada na vivência das virtudes, seja digna de uma feliz recompensa após a morte, quando a alma se liberta do “cárcere” corporal.
O corpo, no pensamento aristotélico, é tudo o que se estende no espaço e pode ser dividido em qualquer direção. Esta noção fora tomada por René Descartes, que afirmara que o corpo é “substância extensa” distinta da alma, a “substância pensante”. Da conceituação da extensão corporal, presente nos pensamentos clássico e moderno, a diferenciação que existe é que para Descartes o corpo é uma substância distinta da alma, ao passo que para Platão, o corpo está submetido, dependendo da alma.
Na contemporaneidade, a partir das correntes filosóficas, Fenomenologia e Existencialismo, o pensador Gabriel Marcel (1887-1973)[1] criticou as concepções de corpo como instrumento e objeto, e defendeu a concepção de “corpo próprio”, a partir da cinestesia que acontece na vivência humana em meio ao mundo, mediante o corpo. Comenta Abbagnano (2007, p.249):

Marcel criticou a ideia de corpo objeto e de corpo instrumento. O meu corpo não pode ser um objeto porque é constantemente percebido como próprio (cinestesia) por parte do sujeito. Será preciso dizer, então, que “sou meu corpo” (Jornal Métaphysique, 1927, p.252) e que existir equivale a “estar encarnado”.

Com esta orientação panorâmica, na história da filosofia, acerca da concepção de corpo humano, compreende-se o pensamento antropológico de Karol Wojtyła no que toca à dimensão somática da pessoa humana, como uma síntese das concepções clássica (Corpo instrumento) e contemporânea (Corpo próprio), quando expõe a integração do corpo na ação pessoal.


6.2  Integração do corpo na ação


Na obra “Pessoa e ação”, Karol Wojtyła evidencia a integração do corpo na ação da pessoa. A dinâmica do corpo é coordenada pelo princípio de reatividade peculiar ao corpo animado; este princípio da reação corporal é vinculado aos impulsos de autoconservação e de perpetuação da espécie, que no ser humano se liga à afirmação da existência.

O dinamismo do homem, puramente somático, pode ser considerado reativo. A potencialidade que se encontra, em sua raiz, pode ser denominada reativa [...]. A ideia de reação se aplica a diversos elementos da conduta do homem e a diversas formas de atuar. Esse fato implica que o fator da reatividade do corpo se encontra profundamente na raiz de todo atuar da pessoa humana (SILVA, 2005, p.83).

Na antropologia wojtyliana a ação corporal deve ser orientada para se tornar “ação da pessoa”. Assim, a ação do homem é tipicamente pessoal quando obedece a autodeterminação da pessoa dada na vontade consciente, através do querer que administra a ação da pessoa no mundo, orientando a reatividade somática. Deste modo, dá-se a integração do corpo humano na ação pessoal, como afirma Wojtyła (2011, p. 276): “No conceito de autopossessão está incluído a pessoa como alguém que se possui a si mesmo, ao mesmo tempo que é possuído por si mesmo [...] a ideia de autodomínio inclui a pessoa tanto como alguém que se governa a si mesmo e se subordina a si mesmo”[2].
Karol Wojtyła concebe a sua ideia de integração do corpo à ação pessoal, mediante a integração da reatividade, que é junção de corpo e ação, na personalidade humana, através da sujeição do corpo ao querer consciente da pessoa humana. Deste modo, para que se vivencie o corpo como próprio, na antropologia wojtyliana, a ação corporal deve ser coerente com as decisões pessoais, manifestando deste modo a transcendência da pessoa.


6.3 Norma personalista e pudor


Se há a integração da ação corporal na personalidade humana, mediante a autodeterminação, a pessoa humana está em condições favoráveis de se dar a norma personalista wojtyliana, visando o bem de todas as pessoas, inclusive o seu.
O corpo integrado na ação pessoal corresponde à exigência da dignidade da pessoa humana, ressaltada na ética do amor de Karol Wojtyła. Neste rumo, o “corpo próprio” ou “corpo pessoal”, assim como a pessoa toda, é objeto da norma personalista. Isto implica a exigência do pudor sexual como zelo peculiar ao corpo da pessoa, que mostra a pessoa humana na sociedade. Para Karol Wojtyła (1982, p.160):

O valor da pessoa está estritamente vinculado à sua inviolabilidade, por ser ela mais que um “objeto de uso”. O pudor sexual, de certo modo, instintivamente defende esta colocação, portanto defende também o valor da pessoa. Mas não se trata apenas de defender. Trata-se de revelar, por assim dizer, este valor, e precisamente revelá-lo junto com os valores sexuais que estão ligados à pessoa.

O pudor sexual visa a preservação da dignidade pessoal do corpo humano para que a exposição dos membros corporais que despertam o desejo sexual seja restrita à convivência matrimonial, evitando que o corpo da pessoa seja considerado, assim como a pessoa, como meio a ser utilizado, ao invés do que realmente é: fim em si.
Este cuidado para com o corpo, além de visar a própria dignidade pessoal, também impõe a preservação da dignidade das demais pessoas, seja no modo de se trajar, seja nas expressões artísticas. A aplicação da norma personalista vinculada ao pudor sexual visa sempre o bem da alteridade.


6.4 Participação versus alienação


Na convivência comunitária o ser humano vivencia a integração das ações corporais na sua personalidade, mediante a autodeterminação, possuindo a si mesmo no processo de “participação” nas relações interpessoais. Karol Wojtyła (2005, p.119), assim conceitua a “participação”:

A atualização do esquema “eu mesmo – o outro” deriva de ser consciente do fato da humanidade em um determinado ser humano diferente de mim, um dos outros, porém sucede por ter experiência do outro “eu” como pessoa. A participação indica a personalização fundamental da relação de um ser humano com outro ser humano[3].

A participação se dá nas relações interpessoais, acentuando o respeito entre as pessoas e a dignidade presente em cada pessoa humana que exige a prática da norma personalista. Nesta visão, participação é o oposto de “alienação”. Com efeito, diz Wojtyła (2005, p.125):

A alienação não é, [...]senão o contrário da participação, a debilitação ou inclusive a anulação da possibilidade de experimentar outro ser humano como “outro eu”, é ele a causa de uma certa deformação do esquema “eu–outro” [...] com a palavra alienação se caracteriza uma situação ou condição de um ser humano que não se permite experimentar outro ser humano como “outro eu”[4].

O processo de “alienação” acontece em não considerar o outro na sua humanidade e personalidade, o que impede uma autêntica relação interpessoal, impossibilitando a vivência da norma personalista e minando os alicerces do matrimônio e da vida comunitária.
Então, partindo dos princípios metafísicos e éticos da norma personalista, sempre visando o bem da pessoa humana, a “participação” é sempre o processo adequado que oportuniza a vivência das relações interpessoais, constituindo a família e a sociedade.


6.5 Abertura à alteridade


No artigo intitulado “Pessoa: sujeito e comunidade” (1976), Karol Wojtyła pensa as relações interpessoais e as relações comunitárias, conceituando a primeira por “Eu–tu” e a segunda por “nós”, como modo de levar em consideração as contribuições dadas à antropologia no realismo escolástico de Severino Boécio (480-524)[5], que conceitua o homem como “substância individual de natureza racional”, e as contribuições dadas pela gnosiologia moderna que concebe o ser humano como “sujeito”. Deste modo na relação “eu–tu” para Wojtyła (2005, p.81): “O ‘tu’ é outro ‘eu’ distinto de mim. Pensando e dizendo ‘tu’, eu expresso ao mesmo tempo uma relação que de algum modo se projeta fora de mim, porém que ao mesmo tempo retorna também a mim”[6].
Na relação “eu-tu”, ocorre o encontro participativo entre dois sujeitos humanos, dando azo ao reconhecimento da dignidade pessoal presente em ambos. Alicerçada nesta relação se erige a relação denominada “nós”, que origina a vitalidade comunitária e a sociedade. Como escreveu Wojtyła (2005, p. 90):

O “nós” indica, sobretudo, uma coletividade; esta coletividade, que podemos chamar sociedade, grupo social, etc., não possui em si um ser substancial, sem embargo [...] o que deriva da acidentalidade, das relações entre os homens-pessoas, apresenta-se em primeiro plano, fornecendo a base de um juízo, em primeiro lugar, sobre todos, e, em segundo lugar, sobre cada um nesta coletividade[7].

Desta maneira, a vivência da participação em todas as relações interpessoais (eu-tu) é o que fundamenta a participação social, seja no matrimônio, seja na comunidade. De fato, na relação “nós” há uma síntese entre as concepções escolástica e moderna acerca do ser humano, pois, o homem não é mais visto unilateralmente como “substância individual de natureza racional”, ou apenas como “sujeito”, porém ele é contemplado na sua integridade de pessoa humana; não somente é conceituado deste modo, mas vivencia a sua personalidade, participando com os outros na construção do mundo. Desta maneira, o seu corpo personalizado é integrado, mediante os gestos pessoais, na comunidade humana, visando toda pessoa humana sempre como bem em si mesmo, conforme a prática do amor.




[1] Filósofo francês vinculado ao chamado “Existencialismo cristão”. Marcel fundamentou seu pensamento nas filosofias tomista, hegeliana e fenomenológica. Dentre suas obras se destacam: “Jornal metafísico” (1927), “Ser e ter” (1935) e “Homo viator” (1944).
[2]  Fonte em espanhol: “En el concepto de autoposeción está incluida la persona como alguien que se posee a si mismo, a la vez que es poseído por si mismo [...] la idea de autodominio incluye a la persona tanto como alguien que se gobierna a si mismo y se subordina a si mismo”.
[3]  Fonte em espanhol: “La actualización del esquema “yo mismo-el outro” deriva de ser consciente del hecho de la humanidad en un determinado ser humano diferente de mi, uno de los otros, pero sucede al tener experiencia del outro “yo” en cuanto persona. La participación indica la personalización fundamental de la relación de un ser humano con outro ser humano”.
[4]  Fonte em Espanhol: “La alienación no es, em efecto, sino lo contrario de la participación, la debilitación o incluso la anulación de la posibilidad de experimentar otro ser humano como ‘outro yo’, y ello a causa de uma cierta deformación del esquema ‘yo – outro’ [...] con la palabra alienación se caracteriza uma situación o condición de um ser humano que no le permite experimentar outro ser humano como ‘outro yo’”.
[5]  Filósofo medieval que fora cônsul do rei ostrogodo Teodorico. Estudou em Atenas, onde obteve um conhecimento enciclopédico. Sua principal obra, que trata da divina providência, é intitulada “Sobre a consolação pela filosofia”. É considerado como o primeiro  pensador escolástico.
[6]  Fonte em Espanhol: “El ‘tú’ es otro ‘yo’ distinto a mi. Pensando y diciendo ‘tú’, yo expreso a la vez una relación que de algún modo se proyecta fuera de mi, pero que al mismo tiempo retorna también a mi”.
[7] Fonte em Espanhol: “El ‘nosotros’ indica, sobre todo, una colectividad; esta colectividad, que podemos llamar sociedad, grupo social, etc., no posee en si un ser sustancial, si embargo [...] lo que deriva de la accidentalidad, de las relaciones entre los hombres-personas, se presenta como en un primer plano, suministrando la base de un juicio, en primer lugar, sobre todos, y, en segundo lugar, sobre cada uno en esta colectividad”.

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