terça-feira, 27 de novembro de 2012

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte 1)





JONAS MATHEUS SOUSA DA SILVA













O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA




Monografia apresentada ao Instituto de Estudos Superiores do Maranhão, para a obtenção do grau de Licenciatura plena em Filosofia.

Orientador: Prof. Ms. José Luís Leitão.








São Luís
2012


JONAS MATHEUS SOUSA DA SILVA



O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA




Monografia apresentada ao Instituto de Estudos Superiores do Maranhão, para a obtenção do grau de Licenciatura plena em Filosofia.


Aprovada em: 20 de novembro de  2012


BANCA EXAMINADORA



Prof. José Luís Leitão (orientador)
Mestre em Filosofia
Pontifícia Universidade Gregoriana - Roma


Prof. José Assunção Fernandes Leite
Doutor em Filosofia
Pontifícia Universidade Católica - São Paulo


Prof. Ediel dos Anjos Araujo
Especialista em Filosofia Política
Universidade Federal do Maranhão





























Aos meus amados pais, Jovêncio Oliveira da Silva e Antônia do Carmo Sousa da Silva, testemunhas do amor cristão na vida matrimonial, familiar e comunitária.



AGRADECIMENTOS


Agradecer constitui um ato da pessoa que reconhece a importância devida à alteridade, bem como o valor da comunidade, para que a pessoa humana agradecida exista participando conscientemente com suas aptidões e deseje sempre o bem de todas as pessoas humanas criadas à imagem e semelhança de Deus, que é Amor.
Nesta vereda de gratidão, agradeço de todo o coração à Santíssima Trindade que tem no centro de seu supremo amor, o meu ser e existir. À santa Mãe de Deus, agradeço, pela sua constante proteção espiritual sobre a minha vida; também a São Francisco e à Santa Clara, pela herança espiritual na via da santidade que legaram à nossa família franciscana; ao beato João Paulo II, de modo especial, pelo seu eficaz amor à Cristo e à Igreja expresso no serviço à promoção da dignidade de toda a pessoa humana.
Agradeço aos Frades Capuchinhos, em especial à Província Nossa Senhora do Carmo, pela acolhida no seu percurso de formação inicial na vida religiosa. Deste modo agradeço aos meus formadores deste caminho formativo: Frei Hernane costa, Frei Willian Alves, Frei Eldi Pereira, Frei Ribamar Gomes, Frei Deusivan Santos e Frei José Luís Leitão. Estendo esta palavra de gratidão aos meus orientadores espirituais, neste período: Frei Luis Carlos Moraes, Frei Pedro Antônio, Frei Silvio Almeida, Frei Lázaro Nunes, Padre Luís Carline, Irmã Maria Elisabete da Trindade (carmelita), Padre Fausto Bereta e Padre Ribamar Xavier.
Meu cordial agradecimento à minha amada família: meus pais, Jovêncio Oliveira e Antônia do Carmo, meus irmãos: Jorbia Cecília – com seu esposo Ricardo Nogueira – e Jones Tiago; pela profunda vivência da fé e da caridade. Agradeço aos meus avós maternos (Otávio e Osmarina Sousa) e aos avós paternos, in memoriam (Sebastião e Alice Silva), também aos tios e primos (em particular às primas Luciana e Zarife, com a tia Maria Rodrigues, que me dão um profundo auxílio familiar e espiritual, neste momento de conclusão da etapa filosófica); aos meus familiares agradeço a ternura, a afinidade e a consideração.
De modo muito especial, agradeço à “mana”- Luciane Oliveira Moraes, pelo mútuo cultivo de nossa amizade fraterna, dada no diálogo franco, na ternura, no amor de predileção e na compartilha dos saberes místico, filosófico e poético. Sou grato aos seus pais, Agnaldo e Lucirene Moraes e ao seu irmão Ginaldo Moraes, por terem me acolhido de maneira muito caritativa como um membro de sua família. Que o Senhor Deus os recompense sempre!
Expresso minha fraterna gratidão aos co-irmãos de turma que no cotidiano do processo formativo, partilham comunitariamente o perdão e a festa, na busca do bem comum. Especialmente ao Frei Wilton Meira, e aos irmãos que conviveram conosco desde o noviciado: Roberto Fortaleza, Leonardo Ribeiro, Rudá Melo, Leandro Raul e Vilmar Santos, e não mais militam na vida capuchinha. Este agradecimento se estende aos co-irmãos professos simples com os quais convivi na etapa filosófica, de maneira particular, cito os conterrâneos capanemenses: Frei Willyams Quadros, Frei José Danilo e Frei Antônio Alves. Agradeço aos co-irmãos sacerdotes: Frei José Leitão, Frei Luís Rota, Frei Antônio Macapuna, Frei Cláudio Marcio e Frei Ângelo Falomi, pela responsabilidade formativa e espiritual para com a nossa fraternidade.
Dou minha franciscana gratidão aos irmãos da Ordem Franciscana Secular da Fraternidade Nossa Senhora dos Capuchinhos, na Vila dos Frades – Ana Muniz (que inclusive me prestou sua ajuda avaliativa para o bom êxito desta monografia), Rosário Muniz, Lídia, Sebastiana, Isenaide, Maria do Carmo, Domingos, Jaqueline, Valdo e Nunes – com os quais compartilhei a vida franciscana. Estendo o meu agradecimento aos Freis: Haroldo Britto, José Domingos e Deybson Farias, pela convivência pastoral na animação vocacional da nossa província. Meu agradecimento aos Freis: Ribamar Gomes e Silvio Almeida pela doação dos livros filosóficos de autoria do beato Karol Wojtyła.
Agradeço ao professor orientador, Frei José Luís Leitão (mestre), pela responsabilidade intelectual, pelo incentivo e pela dedicada correção lógica e gramatical do texto monográfico. Distendo minha gratidão aos professores convidados para integrar a banca examinadora, os professores: José Fernandes (doutor) e  Ediel dos Anjos Araujo (especialista). Do mesmo modo, agradeço à professora Marluce Coelho, pelo valoroso incentivo. Agradeço profundamente aos professores e às professoras que nos lecionaram as disciplinas do Curso de licenciatura plena em filosofia, do IESMA, no triênio 2010-2012; particularmente ao casal de professores Raimundo e Carmem Portela, que representam a presença da família Cristã no IESMA e aos funcionários da instituição: Claudia, Adriana,  Márcio, Rita, Orlando, Sebastião, Professora Lúcia, dona Deca, Maidson, entre outros. Meu abraço de gratidão aos colegas da nossa turma de filosofia “Cogito ergo sum”, pelo companheirismo e pelo respeito; em especial, aos colegas Elinaldo e Felipe Oliveira que também trabalham em suas monografias a filosofia de nosso admirado Karol Wojtyła.
Minha gratidão, a todos os que amistosamente se tornaram agentes de imprescindível auxílio para que bem concluísse essa jornada acadêmica, especialmente: dona Glória Loureiro, Joina Maria, Railton, Lene,  Nailson, Carol, Régis, Erika, Igor e todos os membros do grupo Ágape do Radional – paróquia do Anil. Agradeço à dona Denise e sua filha Larissa, pelo amadrinhamento na formatura. Cordialmente agradeço a amizade dispensada por: Frei Manoel Basílio, Wilton Junior, Alex Bonfim, Antônio Jhones, Irmão Angélico, Lucileide Lima, Romário Avelino, Claudnei Reis, Lilia Raquel, Jonata, Irmã Silvana Vargas, Irmã Mirian, Irmã Beyse, Paulo Vasconcelos, Silvia Antônia, Camila Gomes, Erwellen, Elizamar Soares, Sr. Domingos com dona Joana, Augusto e Frei Renato, Frei Pablo Aguiar, Frei Odinei Mota, Frei Claudson Menezes, Frei Raimundo Edson, Frei Paulo Araújo (da Capoeira), Frei Elias e Frei Erick, Sr. Edilson com dona Malvina, Sr. Miguel e Sr. Valdir. Estendo ainda minha gratidão aos trabalhadores do nosso convento, As Sra.s. Conceição e Kely e os Sr.s. Nino e Givaldo, que no cotidiano de nossa fraternidade dão sua indispensável contribuição para o bem da mesma.
Faço ardentes votos, que o Senhor Cristo recompense a todos, orientando-os na fé, pela via do amor oblativo, rumando para a real construção do bem comum, prelúdio do Reino de Deus neste mundo.









































“É o amor que converte os corações e dá a paz”.

Beato João Paulo II (Karol Wojtyła)




RESUMO


Evidencia a dignidade pessoal do corpo humano, integrado nos atos pessoais, através do pensamento antropológico e ético de Karol Wojtyła. Mostra a sua biografia intelectual com o seu itinerário poético, dramatúrgico e filosófico sempre ligado à promoção da cultura polonesa e à sua vida clerical na igreja católica. Considera a ética utilitarista promovida pelo domínio mercadológico e a redução da visão acerca do ser humano à materialidade corporal. Aborda a confrontação de Wojtyła com a ética de Max Scheler e o pensamento tomista, resultando na síntese de ambos. Ressalta a ética wojtyliana do amor entre homem e mulher orientada pela norma personalista, nas produções teatral, filosófica e teológica de nosso filósofo. Expõe a dignidade pessoal do corpo humano na integração da reatividade somática na vontade humana, quando orientada pela norma personalista, que dar base à família e à comunidade humana.


Palavras-chave: Karol Wojtyła. Ética. Homem e mulher. Norma personalista. Corpo humano.
















RIASSUNTO


Pone in evidenza la dignità  personale del corpo umano negli atti personali attraverso il pensiero antropologico ed etico di Karol Wojtyła. Mostra la sua biografia intellettuale con il suo itinerario poetico, drammaturgico e filosofico sempre legato alla promozione della cultura polacca e alla vita clericale nella chiesa cattolica. Considera l’etica utilitarista promossa dal dominio mercadologico e la riduzione della visione sull’essere umano alla materialità corporale. Abborda il confronto di Wojtyła con l’etica di Max Scheler ed il pensiero tomista, risultando nella sintese di entrambi. Risalta l’etica wojtyliana dell’amore tra uomo e donna verso la norma personalista nelle produzione teatrale, filosofica e teologica del nostro filosofo. Espone la dignità personale del corpo umano nella integrazione di attività somatica nella volontà umana quando orientata dalla norma personalista che dà basi alla famiglia e alla comunità umana.


Parole-chiave: Karol Wojtyła. Etica. Uomo e Donna. Norma personalista. Corpo umano.

O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte2)

1 INTRODUÇÃO


Na ética pragmático-liberal, vigorante em nosso atual mundo dito globalizado, o corpo humano é frequentemente rebaixado à posição de coisa submissa à lógica mercadológica; sua importância tem que estar em conformidade com o padrão de beleza física, estandardizado no mercado e na mídia, para que atenda as necessidades do consumo em voga. Nesta esteira, a corporeidade é aviltada na sua dignidade de partícipe do composto humano, por ser reduzida ao setor material disponível no comércio. Preocupando-nos com o estado de decadência imposto avassaladoramente à dimensão somática do homem, desejamos pôr em evidência os princípios éticos da dignidade humana. E para isto, acercamo-nos da produção filosófica de Karol Wojtyła. Sendo assim, a pergunta é: Qual é a contribuição de Karol Wojtyła para o resgate da dignidade da corporeidade humana? Para responder a esta questão, seguir-se-á a metodologia de revisão de literatura de natureza analítica, descritiva e crítica sobre a temática da somaticidade humana e seu resgate no pensamento de Wojtyła, com o objetivo de pôr em destaque um pensamento que evidencie a dignidade da pessoa humana na perspectiva da ética do amor. A fim de chegar às conclusões necessárias, será efetivada a pesquisa literária em livros e outros periódicos, disponíveis em meios, impresso e eletrônico.
Perante a impostação da moral utilitarista, que defende a utilização de qualquer meio desde que se obtenha o máximo de prazer, mantida em nossa atual cultura hiper-consumista, a pessoa imerge no anonimato da massa humana donde tenta se singularizar e destacar sua subjetividade através do ter e do aparecer, em detrimento do cultivo do ser pessoa. Há aqui uma redução da perenidade de sua essência à fugacidade existencial.
Neste contexto atual é preocupante o culto à formosura corporal e a instrumentalização da pessoa. Tal instrumentalização está muito ligada a busca de satisfação prazerosa como fim. Daí a exploração sexual, a prostituição e o tráfico humano, o enfraquecimento nas relações interpessoais, sobretudo, como quer trabalhar a nossa pesquisa, nas relações afetivas entre homem e mulher, que, na questão do namoro e matrimônio, ficam reduzidas ao uso do outro em vista da paixão sentida e do prazer almejado.
Assim, encontramos o problema do pouco amor ou do não amor, no sentido de preocupar-se e agir com fim na realização do outro, sempre nessa esfera de relação amorosa entre homem e mulher, com a consequência do empobrecimento do ser-pessoa do outro. Então, temos uma relação frustrante e passageira que não se sustenta, dado que se move conforme a lógica da instrumentalização e exploração da pessoa-coisificada. Ora, nenhuma pessoa gosta de ser explorada e diminuída na sua dignidade de pessoa humana. Com a mentalidade utilitarista em vigor, que tolhe o amor e o engrandecimento do ser humano, este é concebido no mesmo nível das coisas e outras espécies vivas, isto obscurece sua liberdade. Assim, não é de admirar que haja o desmoronamento do matrimônio e da família, a desumanização e o desrespeito a vida humana, da concepção até seu declínio natural.
Esta realidade hodierna se torna problema para quem almeja resgatar o valor da pessoa humana em sua essência, a genuína felicidade alcançada pela vivência do amor e os valores da corporeidade e das relações amorosas entre homem e mulher, numa ética filosófica que auxilie nas respostas aos problemas citados. Desse modo, deparamo-nos com a rica contribuição do filósofo polonês Karol Jozef Wojtyła (1920–2005), no que se refere ao personalismo cristão, esse que inclusive como papa da Igreja Católica Romana, de 1978 a 2005, trouxe à luz seus pensamentos filosóficos no campo teológico.
O presente trabalho monográfico está estruturado em cinco capítulos, nos quais se apresenta uma síntese biográfica de Karol Wojtyła, uma abordagem sobre a questão da desvalorização do corpo humano no mundo atual, uma pesquisa acerca do confronto entre as éticas de Max Scheler e de Karol Wojtyła, a exposição da ética wojtyliana do amor e, por fim, a evidenciação da dignidade do corpo da pessoa humana, com base na ética e na antropologia, wojtylianas.
No capítulo “KAROL WOJTYŁA: dramaturgo, poeta e filósofo”, há uma biografia da vida intelectual de Karol Wojtyła, enfatizando a sua nacionalidade polonesa e o amor que ele nutriu pela cultura de seu povo que o levou a enveredar o caminho da literatura poética e da arte dramatúrgica; mais à frente, destaca-se o seu percurso filosófico intimamente associado à sua vida de clérigo da Igreja católica.
Em “A PROBLEMÁTICA DO CORPO HUMANO NO MUNDO ATUAL”, evidencia-se a cisão Corpo-alma na compreensão do ser humano ao longo da história da filosofia, a imposição da ética utilitarista pelo poder mercadológico às pessoas massificadas pelos meios de comunicação e a redução da compreensão acerca do ser humano à materialidade somática.
No capítulo seguinte, “KAROL WOJTYŁA E A ÉTICA DE MAX SCHELER”, mostra-se a tentativa de Karol Wojtyła de aproximar fenomenologia e moral cristã, ao pesquisar a possibilidade de basear a ética cristã no sistema ético de Max Scheler e, concluída a impossibilidade desta empresa, a resultante síntese entre linguagem fenomenológica e o pensamento tomista, que caracterizam a filosofia wojtyliana.
Em “A ÉTICA WOJTYLIANA DO AMOR”, apresentam-se três obras de nosso pensador, que dizem respeito à vivência ética do amor entre homem e mulher; são o teatro “A loja do ourives”, a obra ética “Amor e responsabilidade” e a obra teológica “Homem e mulher o criou”, que constituem fundamentos essenciais para se compreender a abordagem sobre o amor humano no pensamento de Karol Wojtyła.
Enfim, o capítulo “A DIGNIDADE PESSOAL DO CORPO HUMANO”, baseando-se no pensamento antropológico de Karol Wojtyła, sobretudo na sua obra “Pessoa e ação”, enfatiza a integração da reatividade corporal na personalidade humana por meio da administração dos gestos corporais pela vontade, sempre motivada pela consciência que visa o bem de toda a pessoa humana, dado que o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus.
Assim, segue-se este trabalho monográfico que tendo por objetivo evidenciar a dignidade da pessoa humana com o seu corpo, mostra a perenidade do pensamento wojtyliano como orientação ética embasada na fé e no amor que propicia uma educação de toda a pessoa humana em vista do bem comum na família e na sociedade em geral.



O FENÔMENO DO CORPO HUMANO NA ÉTICA DO AMOR DE KAROL WOJTYŁA (Parte3)



2 KAROL WOJTYŁA: dramaturgo, poeta e filósofo


Karol Josef Wojtyła (1920-2005) é mais conhecido como “João Paulo II”, o carismático e diplomata papa polonês que guiou a Igreja Católica Romana de 1979 até 2005. Wojtyła, como dramaturgo, poeta e filósofo, deu suas contribuições para a antropologia e para a ética escrevendo vários textos, os quais foram produzidos antes de ser eleito Sumo Pontífice.
As principais fontes literárias utilizadas para a elaboração desta abordagem acerca da vida intelectual de Karol Wojtyła são: o artigo “A filosofia personalista de Karol Wojtyła”, de Juan Burgos; a biografia de Wojtyła escrita por Bernstein e Politi: “Sua santidade: João Paulo II e a História oculta de nosso tempo”; e o livro “Dom e mistério”, escrito por Wojtyła no exercício de seu pontificado à frente da Igreja Católica Romana.


2.1 A experiência teatral


Aos 14 anos, quando cursava o ginásio em Wadowice (Polônia), Wojtyła atuou no teatro. Nesse período ginasial, ele se dedica à leitura e encenação de peças teatrais e de poesias românticas, junto a um grupo de outros jovens atores, em meio aos quais acumulou os encargos de diretor e cenógrafo do grupo.
Ainda em Wadowice, ele encontrou pela primeira vez o professor polonês Mieczysław Kotlarczyk (1908-1978), grande incentivador do teatro e da literatura, e mentor da “Palavra Viva” no teatro polonês. Sobre Kotlarczyk, afirma Bernstein e Politi (1996, p. 70):

Kotlarczyk aspirava a criar um teatro das profundezas interiores ‘no qual, mais do que apenas assistir a uma apresentação, a pessoa ouve’. O ator, aprendeu Wojtyła, precisa seguir o verso e não abafá-lo na tragédia. Seu objetivo deve ser o de gravar seu personagem na percepção do espectador.

Em 1938, Wojtyła se muda com seu pai - o tenente Wojtyła - para Cracóvia, onde frequenta o curso de Filologia e Literatura polonesa pela Universidade Jaguelônica, bruscamente interrompida, no ano seguinte, com o estouro da II Guerra Mundial (1939-1945) e com a invasão nazista, que tomou o poder na Polônia e impôs grandes restrições à Igreja Católica, à comunidade judaica e à cultura local.
Nesse período, Wojtyła assume um ideal cristão e romântico, participando do grupo clandestino Rosário vivo, sob a orientação disciplinar de Jan Tyranowski (1901-1947)[1]; debruça-se sobre a literatura mística dos santos espanhóis, João da Cruz e Teresa de Ávila[2]; produziu três peças teatrais, intituladas: David, Jó, e Jeremias. Por fim, toma ainda parte ativa no grupo de teatro clandestino Studio 39, engajado na manutenção da cultura patriótica da Polônia. De acordo com Bernstein e Politi (1996, p. 62):

O teatro se transformou então numa arma na defesa da cultura polonesa e da pátria polonesa diante do implacável ataque nazista. Com este espírito de resistência de inspiração religiosa, Wojtyła começou a fazer apresentações clandestinas com um grupo de amigos que se denominava Studio 39.

Em 1940, por determinação da ocupação nazista sobre a obrigatoriedade do trabalho juvenil, Wojtyła começa a trabalhar na pedreira Zakrzówek da Solvay e, mais tarde, é transferido para o manuseio de produtos químicos na fabrica em Borek Fałęcki, experimentando os rigores que os ocupantes infligiam ao povo polonês de uma forma mais intensa. No ano seguinte, reencontra o professor Kotlarczyk, com quem elabora o Teatro Rapsódico, o qual tem como característica a palavra declamada que o cenário.




2.2 A via poética


A sensibilidade poética de Karol Wojtyła é predominante em sua vida. Constata-se isto desde a sua juventude, quando se apaixona pela literatura polonesa, até à sua senilidade, quando publicou o livro de poemas “Tríptico romano - Meditações” (2003).
As composições poéticas de Wojtyła, todas coerentes com o seu pensamento filosófico, põem em evidência a pessoa humana na sua ação; como afirma Bogdan Piotrowski (2007, p.97): “E, sempre, sua expressão lírica se fundamenta decididamente na ética, buscando o bem da pessoa e o bem comum”[3]. Os temas recorrentes dos poemas de Wojtyła estão intrinsecamente vinculados à dimensão teatral, ao romantismo em voga na literatura polonesa no período da juventude de nosso pensador-poeta e à sua experiência religiosa, enquanto manifestação da transcendência humana. Neste sentido, vale ressaltar a grande influência mística que Karol Wojtyła hauriu da leitura dos escritos de São João da Cruz.
Concordando com a tendência literária da “palavra-viva”, Wojtyła dá às suas composições uma propriedade cultural polonesa, no sentido de conservar o espírito eslavo durante o domínio nazista sobre sua nação, dominação política que também prejudicava a vivacidade da cultura de seu povo.
Característico da pulsão humana presente na via poética empreendida por Karol Wojtyła são as duas versões do poema “Mousiké”, pois neste, nosso poeta busca uma originalidade poética que se funda na Grécia clássica; assim, esclarece Piotrowski (2007, p.88):  “[...] os gregos chamavam mousiké a toda a arte, em sua tríplice configuração de poesia, música e dança”.[4] Peculiaridades estas, também presentes nos seus demais poemas, como em “Matéria”, do qual citamos duas estrofes, que Wojtyła assina como papa João Paulo II (1996, p. 15):

Ouve! o ritmo cadenciado dos martelos, bem / conhecido, projeto-o nos homens, para pro - / var a força de cada pancada.

Ouve! Uma descarga elétrica corta o rio de / pedra, / dentro de mim, cresce um pensamento, dia / após dia: / toda a grandeza do trabalho está dentro do / homem...

Em Wojtyła, a palavra viva se manifesta ao modo de bondade, beleza e verdade, num caminho poético que convoca o aparecimento do fundamento transcendente da linguagem artística, como manifestação da vida da pessoa humana.


2.3 O itinerário filosófico


Em sua juventude, conforme redigiram Bernstein e Politi, Karol Wojtyła já havia lido com o auxílio de seu pai as obras: Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant; e O Capital, de Karl Marx[5], ambas em alemão, a língua original. Porém, sua formação filosófica mais densa, sobretudo no campo da metafísica aristotélico-tomista, se deu no biênio filosófico, enquanto estava no seminário clandestino, preparando-se para ser padre. A construção de seu pensamento filosófico foi também influenciada pelas esferas fenomenológica, que evidenciaremos mais a frente, e personalista[6].
Depois da ordenação sacerdotal, especializou-se em Teologia e Filosofia, doutorando-se com as teses: “A fé segundo São João da Cruz”, em Teologia (1948); e a “Valoração sobre a possibilidade de construir a ética cristã sobre as bases do sistema de Max Scheler”, em Filosofia (1954).
Juan Manuel Burgos, em seu artigo intitulado “A Filosofia Personalista de Karol Wojtyła” (2006), agrupa o desenvolvimento do pensamento filosófico de Wojtyła em quatro períodos, a saber: a escola ética de Lublin; o amor humano em “Amor e responsabilidade” (1960); a antropologia em “Pessoa e ação” (1969); e o caminho impedido nas áreas das filosofias interpessoal e social.


2.3.1 A escola ética de Lublín


No contexto da escola ética de Lublín, Karol Wojtyła se baseia na metafísica de santo Tomás de Aquino, no empirismo de Hume, no Imperativo categórico de Kant e na ética valorativa dos modelos, de Max Scheler. Fá-lo para realizar sua síntese entre Tomismo e Fenomenologia, além de recorrer à noção de “experiência moral”. Seu objetivo era defender a ética cristã das ameaças que constituem o pensamento hedonista, positivista e apriorista kantiano. Tal escola centrava-se no objetivo de re-fundar as bases da ética clássica através da perspectiva fenomenológica. Assim, a ética lubliniana se funda na experiência moral em sentido realista, pautada no dever de fazer o bem e evitar o mal. Sobre isto escreveu Juan Burgos (2006):

Wojtyła recorre com profundidade à noção de experiência moral. A ética, explica, não surge de nenhuma estrutura externa ao sujeito, não é uma construção mental gerada por pressões sociológicas, nasce de um princípio real e originário: a experiência moral, a experiência do dever, porém não entendido de modo kantiano, como a estrutura formal da razão prática, senão em um sentido profundamente realista, como a experiência que todo sujeito possui – em cada ação ética concreta – de que deve fazer o bem e deve evitar o mal. [7]


2.3.2 O amor humano em “Amor e responsabilidade”


O livro Amor e responsabilidade (1960), como afirma Karol Wojtyła, surgiu da necessidade pastoral de orientar os jovens que se preparavam para o matrimônio, bem como os recém-casados. De fato, João Paulo II, numa entrevista concedida a Vittorio Messori, diz:

Naqueles anos, a coisa mais importante para mim se tornaram os jovens, que me colocaram não tanto perguntas sobre a existência de Deus, mas questões precisas sobre a forma de viver, ou seja, sobre a maneira de resolver e enfrentar os problemas do amor, e do matrimônio, bem como os relacionados com o mundo do trabalho. (MESSORI; JOÃO PAULO II, 1994, p.185-186).

“Amor e responsabilidade” é uma obra ética que prioriza a integração da sexualidade e as relações interpessoais entre homem e mulher; também é uma obra na qual Wojtyła enfrenta a ética utilitarista, contrapondo a esta o conceito de “Norma personalista”. Este conceito foi formulado a partir do preceito cristão da caridade mútua e, também, a partir do princípio kantiano de não instrumentalização do sujeito, que afirma: “O imperativo prático será pois o seguinte: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”(KANT, 1992, p.69). Além do mais, esta obra evidencia o matrimônio como a realização máxima do amor entre homem e mulher.


2.3.3 A antropologia em “Pessoa e ação”


Por seu turno, na obra Pessoa e ação (1969), Wojtyła apresenta bases antropológicas em suas pesquisas relativas à ética e sintetiza Tomismo e Fenomenologia, numa abordagem Personalista. Acentuando a experiência humana, ele destaca que é a ação que faz aparecer a pessoa e que o ato da pessoa permeia todas as dimensões antropológicas do sujeito: “Para nós, a ação revela a pessoa, e vemos a pessoa através de sua ação [...].  A ação nos oferece o melhor acesso para penetrar na essência intrínseca da pessoa e nos permite conseguir o maior grau possível de conhecimento da pessoa”( WOJTYŁA apud SILVA, 2005, p.28). Para Wojtyła, a consciência como lugar do discernimento moral e  sinal da liberdade humana se manifesta por meio da escolha e autodeterminação. “À consciência compete que se forme a experiência da pessoa e permite a ela experienciar a própria subjetividade. A consciência subjetiva o objetivo” (SILVA, 2005, p.32). Wojtyła concebe o ser humano como um conjunto integrado de corpo (soma) e alma (psique). Para ele, “[...] a alma é distinta do corpo, porém no homem formam uma unidade, e se condicionam mutuamente” (WOJTYŁA, 2011, p.320)[8].
De 1975 a 1978, com o auxílio da Dra. Anna-Teresa Tymieniecka, Wojtyła revisou a obra Pessoa e ação e deu-lhe os devidos acabamentos. Foi publicada no décimo volume da revista Analecta Husserliana, em língua inglesa. Como registram Bernstein e Politi (1996, p.141): “Em essência, ela foi colaboradora e editora. Até a presença dela na vida do cardeal, ele tinha sido ignorado e até mesmo rejeitado pela comunidade filosófica”.


2.3.4 O caminho impedido nas filosofias, interpessoal e social


Juan Burgos aponta a eleição de Karol Wojtyła para o encargo de Sumo pontífice da Igreja católica e a consequente interrupção de sua carreira acadêmica como justificativas para a ausência de grandes produções filosóficas que tratem das relações interpessoais e da filosofia social nos escritos filosóficos de Wojtyła. Sem estes fatos nosso filósofo poderia não constar na lista dos pensadores personalistas. Com isso, Burgos expressa o não alheamento de Wojtyła das questões interpessoais e sociais, respaldado nos artigos de nosso filósofo, como “A pessoa: sujeito e comunidade” (1976); artigo este no qual Wojtyła evidencia as relações interpessoais entre sujeitos humanos, denominadas “Eu-tu” e as relações sociais em vista do bem comum, chamadas “Nós”.
Mesmo tendo encerrado sua produção estritamente filosófica após ter assumido o encargo de papa, com o nome de João Paulo II; o papa Wojtyła embasou os seus documentos pontifícios, inclusive suas “Catequeses sobre o amor humano” as quais abordaremos mais a frente, nos conceitos antropológicos e éticos que trabalhou nas suas produções filosóficas.



[1] Sobre Tyranowski, comenta em “Dom e mistério”, Karol Wojtyła como papa João Paulo II (1996, p.32): “Era um operário, apesar de ter escolhido trabalhar na alfaiataria do pai. Afirmava que o trabalho de alfaiate lhe facilitava a vida interior. Era um homem de uma espiritualidade particularmente profunda. Os padres salesianos, que naquele período difícil, tinham voltado a animar a pastoral juvenil, haviam-lhe confiado o encargo de travar contatos com os jovens, no âmbito do chamado ‘rosário vivo’”.
[2] São João da Cruz (1542-1591) e Santa Teresa de Ávila (1515-1582) são dois místicos espanhóis que foram amigos pessoais e promoveram uma reforma nos ramos masculino e feminino da ordem carmelita. Foram redigidas, entre outros escritos, por João da Cruz as obras: “Subida ao monte Carmelo”, “Chama viva de amor” e “Cântico espiritual”, ao passo que Teresa de Ávila escreveu: “O Livro da Vida”, “As sete moradas ou Castelo interior”, “Caminho de Perfeição”, entre outras obras.
[3] Fonte em espanhol:.“Y, siempre, su expresión lírica se fundamenta decididamente en la ética, buscando el bien de la persona y el bien común”.
[4] Fonte em espanhol: “[...] los griegos llamaban mousiké a toda el arte, en su triple configuración de poesía, música y danza”
[5] Immanuel Kant (1724-1804) e Karl Marx (1818-1883) são filósofos alemães. Kant é vinculado ao pensamento idealista alemão e à Teoria do conhecimento ao passo que Marx pertence a corrente do materialismo dialético.
[6]  O Personalismo consiste num movimento filosófico nascido na França do século XX, fundado por Emmanuel Mounier (1905-1950), vinculado à revista “Esprit” que surgiu em 1932. O Personalismo, aliado aos ideais cristãos, afirma o valor intrínseco da pessoa humana, que está vinculado à dimensão comunitária; combatendo o capitalismo e o marxismo.
[7] Fonte em espanhol: “Wojtyła recurre con profundidad y originalidad a la noción de experiencia moral. La ética, explica, no surge de ninguna estructura externa al sujeto, no es una construcción mental generada por presiones sociológicas, nace de un principio real y originario: la experiencia moral, la experiencia del deber, pero no entendido en modo kantiano, como la estructura formal de la razón práctica, sino e muy sentido profundamente realista, como la experiencia que todo sujeto posee – en cada acción ética concreta – de que debe hacer el bien y debe evitar el mal”.
[8] Fonte em espanhol: “La psique es distinta del soma, pero en el hombre forman una unidad, y se condicionan mutuamente”