quarta-feira, 18 de julho de 2012

VAZIO E NADA




Martin Heidegger, ao criticar a metafísica clássica, critica-a pelo niilismo que ela põe ao se esquecer do ser e debruçar-se exclusivamente sobre os entes. Neste rumo, o niilismo do discurso metafísico, que encontrou seu fundamento histórico no pensamento de Parmênides de Eléia (cerca de 530-460 a.C), situa-se, para Heidegger, na nadificação da totalidade do ser, pois tal discurso nada fala sobre o ser do ente. “[...] pensar o ente sem pensar o ser é pensar nada do ser, pensar o ente como nada. A metafísica ocidental, sendo uma doutrina do ente sem o pensamento do ser é, no seu conjunto, niilismo”.
“A superação do niilismo acontece na recolocação da pergunta sobre o ser” (MOLINARO, 2002, p.53)
De fato, a alocução metafísica esqueceu-se da pergunta filosófica: “Que é isto?”, dando margem apenas às perguntas acerca dos entes: “como é isto?”, “para que isto?”, etc., perguntas que oportunizaram o avanço da técnica científica e ao paradigma da subjetividade desde a modernidade, porém nada fala sobre o ser e ignora o conceito de nada. Quanto à essência na pergunta filosófica, escreve Heidegger:
“[...] o ‘é’ traz uma carga transitiva e designa algo assim como ‘recolhe’. O ser recolhe o ente pelo fato de que é o ente. O ser é o recolhimento [...] Todo ente é no ser [...] Todo mundo sabe: ente é aquilo que é. Qual a outra solução para o ente a não ser esta: ser?” (HEIDEGGER, 1973, p.215).
Márcia Schuback, no artigo “O vazio do nada: Heidegger e a questão da superação da metafísica”, ressalta que, para Heidegger, pensar o nada é mesmo, pensar “a força que renova o mundo”, também enfatiza que nos deparamos com um vazio (To Kenón) na história do discurso filosófico. Afirma, ainda, que: “A virada para a filosofia que Heidegger significou para a fenomenologia pode ser caracterizada como uma virada para o vazio [...] significa, em Heidegger, a possibilidade de se pensar o impensável, isto é, o nada [...] pensar a força que renova o mundo” (SCHUBACK apud IMAGUIRE et.al., 2007, p.81).
Então, esse vazio representa a ausência da luz da linguagem filosófica sobre a totalidade do ser. “[...] o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente. Com tal procedimento, subsumimos o nada sob a determinação mais alta do negativo e, assim, do negado [...] o nada é mais originário que o ‘não’ e a negação” (HEIDEGGER, 1973, p. 235).
Pensar esse nada como força renovadora é descobrir neste vácuo a possibilidade de trazer à luz a totalidade do ser ao se retornar, através do pensar, à autêntica questão filosófica – “que é isto?” – procurando o ser dos entes, a fim de que o vazio do nada seja preenchido pelo advento do ser, este que renova o mundo.
Para o discípulo de Heidegger, o filósofo japonês Keijii Nishitani (1900-1990), o espaço para o nada, contemplado no pensamento de seu mestre, é como a antítese à imposição do ser, que seria a tese, no discurso clássico da Filosofia.

“Para Nishitani, o ‘campo’ do nada, entreaberto pelo pensamento de Heidegger, é um nada contra o cheio da substância, sendo um conceito negativo e não inteiramente positivo do nada, o nada como nada, só seria possível segundo o filósofo japonês, numa superação da oposição entre ser e nada, entre ser e não-ser. Essa ‘superação’ pode apenas se dar, de acordo com Nishitani, sob o prisma do vazio” (SCHUBACK apud IMAGUIRE et.al., 2007, p.83).
Nesta senda, Nishitani propõe uma síntese entre o ser e o não-ser que ocorre “sob o prisma do vazio”, dando azo à possibilidade de se situar este vazio entre ser ou nada.
Apesar de Aristóteles ter estabelecido em sua “Física” a compreensão de vazio como “horror ao nada”, em Heidegger, este vazio é possibilidade de manifestação do ser, almejando a finalidade da fenomenologia, ou seja, “as coisas, elas mesmas”. Assim, o vazio do nada é a clareira onde a manifestação do ser pode se dar no jogo velador e desvelador, conforme o movimento do devir do ser. Esta manifestação do ser acontece na linguagem que imbrica poesia e pensamento.
“A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação. A guarda que exercem é o consumar a manifestação do ser, na medida em que a levam à linguagem e nela a conservam” (HEIDEGGER, 1998, p.31).
É a linguagem do pensamento que, tendo se afastado e olvidado o ser, em Heidegger retorna à poesia, segundo o modelo dos perifísios dos primeiros pensadores, que buscaram o princípio do Kósmos na natureza; destes pensadores pioneiros, Heidegger adota o pensamento de Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.), no seu princípio do devir, representado pelo fogo. “Este mundo [Kósmos], o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se e apagando-se em medidas” (HERÁCLITO, 1999, p.90). Condizente com a linguagem poética unida ao pensamento, essa que dá azo à possibilidade de determinar-se nas fronteiras das passagens de ser ao não-ser e, deste ao ser.

REFERÊNCIAS
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. 5. Ed. Lisboa: Gimarães Editores, 1998.
___________. Conferências e escritos filosóficos. In: Heidegger. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Col. Os pensadores).
HERÁCLITO DE ÉFESO. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.81-116. (Col.: Os pensadores).
MOLINARO, Aniceto. Metafísica: curso sistemático. São Paulo: Paulus, 2002.
SCHUBACK, Márcia Sá Cavalcante. O vazio do nada: Heidegger e a questão da superação da metafísica. In: IMAGUIRE, Guido et.al. Metafísica contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 81-99.



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