sábado, 21 de julho de 2012

CAPUCHINHOS EM SÃO LUÍS: A LEGITIMAÇÃO METAFÍSICA




Celebrar os 400 anos de fundação de São Luís do Maranhão, pelos franceses, é o mesmo que pôr em evidência a fé cristã-católica, na perspectiva dos frades capuchinhos, como sustentáculo do existir da capital maranhense; naquele contexto cultural da Europa – do século XVII – era a fé cristã que dava suporte para a ordem social e, os padres missionários que para a “França equinocial” vieram, na frota de La Touche e de Razilly, eram franceses capuchinhos, como escreve Pianzola em “Os papagaios amarelos” (1992).
Em pleno século XVII, ano 1612, período em que na Europa ainda está se consolidando a passagem do sistema de produção feudal para o mercantilismo posto pelas monarquias absolutistas, a fé cristã continuava a ser a base das sociedades daquele continente, seja na perspectiva religiosa da catolicidade ou no enfoque da Reforma protestante; assim, mesmo os tronos reais, não se afastavam da “legitimação” dada pelo viés religioso - tema trabalhado por Petter Berger - agora vinculada ao pensamento absolutista representado por Hobbes e Lutero. Nesta situação, todos os empreendimentos das monarquias europeias estavam vinculados à religião cristã; esta que conferia legitimidade metafísica para as instituições antigas e novas naquele período histórico. Na França não fora diferente quando a Rainha regente, Maria de Médicis – mãe de Luis XIII enviou a expedição comandada por La Touche e Razilly, para o norte do Brasil. Forte motivo da vinda de missionários católicos, naquela expedição, às plagas equinociais do Brasil, apresentava-se como singular oportunidade de estender o catolicismo sobre povos considerados pagãos, frente aos “danos” que o movimento protestante levou à Igreja Católica. Isso deu azo para que a cúria eclesial concordasse com as expedições europeias às terras do “Novo mundo”, por carecerem da fé cristã.
Também, os padres missionários que vieram na expedição francesa e chegaram à “Upaon-Açu”, Ilha grande, conforme a denominaram os seus habitantes tupinambás, em 1612; são eles: Yves d’Évreux, Claude d’Abbeville, Arsene de Paris e Ambroise d’Amiens, quatro franciscanos da “Ordem dos capuchos”, ou seja da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Relembrar a presença destes missionários nos leva a expressar o fato que o discurso metafísico legitimador da fundação de instituições europeias na “Upaon-Açu”, fora dado pela fé cristã-católica à luz da espiritualidade franciscana-capuchinha.
Então, comemorar os 400 anos da fundação de São Luís do Maranhão na “Upaon-Açu” dos tupinambás é, além de reconhecer a presença da monarquia francesa dando início ao modo de civilização eurocêntrica na “França equinocial”, tomar consciência que fora a fé católica, apresentada na perspectiva capuchinha, que fundou a “civilitas”, aos moldes europeus, no que hoje é a capital do Maranhão.



BIBLIOGRAFIA

BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da Religião. 2. Ed. [Trad.: José C. Barcellos]. São Paulo: Paulus, 1985.

CRISCOULO, Vincenzo (Org.). Os capuchinhos: fontes documentativas e narrativas do primeiro século (1525-1619). Brasília: CCB, 2007.

PIANZOLA, Maurice. Os papagaios amarelos: os franceses na conquista do Brasil. [Trad.: Rosa F. d’Aguiar]. São Luís: SCEM; ALHAMBRA, 1992.

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