quinta-feira, 24 de maio de 2012

A RELIGIÃO NO MUNDO PÓS-MODERNO

     
    

Marcada pela estética, a religião no mundo pós-moderno quer atender à necessidade antropológico-tecnicista de vivenciar o clímax de uma sensação transcendente, que signifique a irrupção da esfera divina na existência humana. A estética, ou dimensão da beleza, faz-se um imperativo no culto, se este objetar a eficácia no anúncio do mistério que irrompe da ausência e se faz presente com o homem-religioso no tempo sagrado. Nesta trilha, já afirmou João Mohana (1995, p.90): “Já gastamos séculos contentando-nos em refletir sobre Deus como Verdade. É preciso agora integrar o sentido da Beleza no relacionamento com Deus”.
Divergente de uma vivência religiosa fadada a desmitologização laica, como prenunciou Peter Berger (1985, p.119), ao expressar o conceito de secularização: “Por secularização entendemos o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos”. A secularização afigura-se como fim de uma religião racionalizada instaurada na modernidade; daí, a dimensão religiosa da pessoa humana emerge na contemporaneidade como grito premente de satisfação de necessidades vitais ligadas ao setor sentimental, que fora tolhido no advento da razão, ciência e técnica; tal busca de satisfação segue um estilo de liberdade consumista, sob a égide mercadológica. As relações com a divindade assumem, nesta linha, o caráter de uma transação comercial e do bem estar como bênção; o que embasa a corrente teológica da “Prosperidade”.

Dado que a “democrática” autonomia do ser humano atual, dá-se no ter liberdade e condições de consumir, a fim de alcançar o bem-estar, a ética religiosa, nesta esteira, não é amistosa para com o imperativo categórico universalizante, de o inexorável dever, kantiano:
O princípio da autonomia é, portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal. Que esta regra prática seja um imperativo [...] pois esta proposição sintética que ordena apoditicamente, tem que poder reconhecer-se inteiramente, a priori. (KANT, 1995, p.85).
Porém, a moral do homem contemporâneo acontece na liberdade da construção de valores individualistas.
Neste sentido, a ideia da paz, como valor-telos religioso não é mais vista como extensiva às esferas da política e do diálogo, no entanto, a paz passa a ser vista como um estado de espírito do ser humano individual que está conectado com o ser absoluto, este Ser que, em um tempo advêm ao encontro do homem e, em outro tempo, esconde-se; portando, uma divindade que abençoa e amaldiçoa, consoante as ofertas que o homem religioso lhe rende ou lhe recusa. “Cada celebração vale por si mesma. Cada experiência religiosa carrega dose de alegria e prazer. Com esses retalhos de gozo se confeccionam as vestes religiosas do momento” (LIBÂNIO, 2009, p.114).
A dimensão “mundo virtual” invade a religiosidade, seja nas suas propriedades de movimento e detalhismo, como nas perspectivas que detém a atenção e racionalidade da pessoa humana em suspenso, cativando-a pelo bem estar da sensação. “Os meios de comunicação físicos e virtuais fazem circular por todas as partes diversidade de propostas políticas, culturais, experienciais. A religião se torna verdadeiro laboratório de experimentação de ingredientes espirituais” (Idem, ibidem, p.117). Há uma correspondência estética de permuta entre virtualidade e espaço sagrado, que se invadem reciprocamente.
Desse modo, o homem pós-moderno configura-se como um ser religioso que se vê num processo de autodivinização. Seria esta a busca pelo tornar-se o “super-homem” nietzschiano?

REFERÊNCIAS:
BARTH, Wilmar Luiz. O homem pós-moderno, religião e ética. Teocomunicação, Porto Alegre, v.37, n.155, p. 89-108, mar. 2007.
BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião: São Paulo: Paulinas, 1985.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 1995.
LIBÂNIO, J. Batista. Caminhos de existência. São Paulo: Paulus, 2009.
MOHANA, João. A vida afetiva dos que não se casam. 2.ed. São Paulo: Loyola, 1995.
ZEPEDA, José de J. Legorreta. Secularização ou ressacralização? O debate sociológico contemporâneo sobre a teoria da secularização. RBCS, São Paulo, v.25, n.73, p.129-141, jun.2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário