quinta-feira, 10 de maio de 2012

O destino da Filosofia na História (Por: Fr. Sílvio de Almeida. OFMcap)


 


 

      O mundo grego legou para a humanidade uma forma de saber que ao longo de sua própria história foi se configurando de maneira diversa. Todavia, nessa mentalidade aparente, apenas formal, sua ontogênese permaneceu como essência caracterizando seu modo de ser próprio. A filosofia foi sempre ela mesma, não obstante as formas que a história lhe imprimiu, o que não descaracterizou sua essência.

     É no mundo grego “arcaico”, quanto os fenômenos eram explicados pelos mitos, que surge a filosofia. A filosofia surge como uma filosofia da natureza (Physis) e natural. Da natureza por apresentar-se como uma tentativa de compreender a arché de todas as coisas, a origem do mundo; natural por surgir da espontaneidade do filósofo. O que marca a arché da filosofia é o Thaumázein, sendo este seguido pela epoché, a suspensão do juízo. O Thaumázein é ao mesmo tempo originário por não ser intencionalmente pro-vocado e originador, faz (proporciona) com que uma outra forma de saber apareça – o saber filosófico. O homem grego encontrava-se, agora, frente a uma situação paradigmática, abria-se um novo horizonte. O espanto foi também espantador. O homem grego viu-se “perturbado” diante de sua própria façanha. Aqui parece que a filosofia “nasceu” provocando uma crise. Foi tirado o tapete sobre o qual estavam os gregos – uma mudança paradigmática se estabelecia.

    Os pensadores originários, também preconceituosamente chamados de pré-socráticos, foram pensadores de abertura, neles a Filosofia encontrou o solo para a constituição de sua ontogênese. A filosofia aparece como uma forma de saber desinteressado. Desinteressado não indica alheiamento, pelo contrário, é por ser um saber desinteressado que ela está no “aí” do mundo, em todo lugar e sem lugar determinado. Nesse sentido o filósofo é como (também) poeta, não por romancear a realidade, mas pela atitude de escuta da mesma.

     O perguntar é mais importante que o dizer e todo perguntar filosófico pressupõe necessariamente um escutar, deixar que a coisa fale e não forjar um seu conceito. Por isso, o Thaumázein é seguido da epoché. É essa a atitude do pensador originário. É essa atitude o solo da ontogênese da filosofia.

     Com Platão e Aristóteles a Filosofia começa a ser uma forma de saber sistematizado, o logos torna-se Episteme embora ainda reconheçam que a Filosofia surgiu da admiração e do estranhamento. Aqui a Filosofia torna-se reflexão sobre a ética, a moral, a estética... e principalmente sobre a Política. Platão idealiza uma “República” e tenta em Siracusa implantar o seu sistema teórico-filosófico-político. Aristóteles também escreve a “Política” embora sua pretensão pareça mais moderada que a do seu mestre.

     Após o tripé grego: Sócrates, Platão e Aristóteles, embora o primeiro nada tenha escrito, todo o Ocidente parece ter concebido a Filosofia ao modo platônico e aristotélico. Daí ainda hoje muitos autores atribuírem a esse tripé, mais precisamente a Sócrates a paternidade da Filosofia. E sim, mas da filosofia enquanto um saber sistemático –   “produção de gabinete!?”

     A era medieval “transforma” a Filosofia em apenas “serva da teologia”, um saber de Segunda categoria. Concepção que até pouco tempo atrás persistia no mundo clerical em que para cursar a Teologia era necessariamente obrigatória a filosofia. Nesse mundo, Platão e Aristóteles foram retomados e tiveram suas filosofias “cristianizadas”. Nesse período, ser filósofo era incorrer no sério risco de tornar-se churrasco humano, vitimado pelo tribunal da “santa” Inquisição –   Giordano Bruno foi uma das vítimas, dentre outros.

     Na modernidade surgem várias correntes filosóficas: idealismo, racionalismo, empirismo, criticismo, pragmatismo ... É difícil dizer o que é a Filosofia aqui. Talvez se se forjasse um conceito, o mais apropriado fosse: “uma forma múltipla de pensar o múltiplo”. Uma teoria do conhecimento? – talvez! Se pensada a partir dos racionalistas, empiristas, idealistas. Uma teoria política?  -  talvez! Se pensada a partir dos contratualistas como Thomas Hobbes com seu “Leviatã” e Rousseau com o seu “Contrato Social”.

     Na modernidade o paradigma que se instaura é o paradigma da cientificidade como “superação” do pensar teológico. Com o heliocentrismo o homem não apenas deixou de ser o centro do universo como também perdeu o centro.

     Com a modernidade o niilismo parece dominar o homem. A própria ação do homem faz duvidar de que se realmente a modernidade existe ou como afirma Enrique Dussel é um mito[1], se pensada Hegelianamente, como um processo rumo à Ilustração.

    No século XX filósofos como Martin Heidegger tece severas críticas à Filosofia perda do sentido do nada. A metafísica tradicional ao perguntar pelo ser nada mais fez que perguntar pelo ente. Quando Platão tenta pensar o ser como ousía, como entidade (do ente), passa a pensar o ente: fatalmente o Ser parece ter sido condenado a se tornar ónto ón, um ente em sentido pleno, mas não mais o Ser.

    Segundo o filósofo brasileiro, Manfredo de Oliveira, para Heidegger “o objeto da filosofia é o sentido do Ser, e a análise existencial é feita em função desse fim”[2].

    Em “Ser e Tempo” Heidegger assume que a essência do homem está em sua existência, tanto que afirma categoricamente: “A essência da Pre-sença está em sua existência”[3].

    A filosofia tem como tarefa primordial, mostrar o horizonte a partir de onde o Ser pode ser entendido. O ente privilegiado a essa tarefa é o Dasein. Todavia, a partir de 1929, o filósofo alemão não fala mais de uma “ontologia fundamental” a partir da qual são pensadas as ontologias regionais. A filosofia agora é um “pensar fundante” no qual o Ser se manifesta enquanto fundamento dos entes. O pensamento metafísico chega a seu fim.

    Segundo Heidegger, depois de Marx não houve propriamente filosofia. O desenvolvimento do pensamento que pretendeu ser metafísica se realiza em nossos tempos através da proliferação e do domínio universal das ciências particulares e da técnica[4]. Heidegger mesmo já havia anunciado isso na sua obra: “O Fim da Filosofia” quando diz:

“Não é necessário ser profeta para reconhecer que as modernas ciências que estão instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética. Esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à práxis na sociedade”[5].

    Nesse mesmo escrito o filósofo afirma:

“o desdobramento da filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da filosofia. Na época presente a filosofia chega a seu estágio terminal”[6].

    O que Heidegger mata é uma filosofia já assassina, uma filosofia que sufocou, “matou” a Filosofia originária. Na realidade é uma morte com o fim de trazer de volta a Filosofia mesma, daí o filósofo propor um retorno à Filosofia originária onde “o espanto é a dis-posição em meio à qual estava garantida para os filósofos gregos a correspondência ao ser do ente”[7].

“Fim da filosofia significa universalização da cultura européia através da tecnificação do mundo. A primeira civilização realmente mundial é, no fundo, uma vitória da metafísica. Fim da metafísica é fim da filosofia”[8].

    Frente à crítica da metafísica, Heidegger aponta para uma nova perspectiva do pensar, o que significa pôr um fim à filosofia. A modernidade, em termos de tecnificação, apresenta como paradigma central o paradigma científico. Tudo parece ter que passar pelo crivo da ciência. “As ciências procuram assegurar o domínio do homem sobre os diferentes entes”[9], as categorias utilizadas são em sentido instrumental e não mais ontológico, há uma supremacia do ente sobre o Ser. Este é o que menos importa. O discurso científico funda-se no sentido puramente instrumental. A verdade agora é medida em termos de eficiência. A modernidade ao mesmo tempo em que “avança” em termos técnico-científico faz da ciência e da técnica sua única perspectiva. A ilustração Kantiana e Hegeliana é medida em termos de tecnificação. Racionalização significa para o homem moderno tecnificação. Na modernidade, a razão técnica, “a razão instrumental se faz a única dimensão da razão”[10]. A questão é: será essa a dimensão mais adequada de manifestação da realidade? é um tanto duvidoso dizer que sim. Parece que com o alvorecer da ciência, com a tecnificação do mundo, a dimensão tecnológica parece ser a única possibilidade de relacionamento com a realidade.

    No mundo da técnica, em que a ciência aparece como máxima autoridade – a única capaz de dizer a verdade (paradigma científico) –   culminado com o capitalismo desumanizador, o homem encontra-se, como em nenhum outro momento da história, perdido em um niilismo quase absoluto. Karl Marx já alertava para os perigos do capitalismo, em que o ser é medido pelo poder, pelo ter.

“Aquilo que eu sou e posso não é, pois, de modo algum determinado pela minha própria individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher”[11].

    O mundo da técnica é o mundo do capital em que “o poder do dinheiro é o meu próprio poder”, afirmava Marx. Todavia, Marx reconhece no dinheiro “o poder alienado da humanidade”[12]. O homem é pensado a partir da produção e do consumo, é ele coisificado. Esquecer o ser não é um problema puramente filosófico, mas no mundo tecnizado tem dimensões antropológicas e sociológicas profundas.

    Frente a esse contexto, filósofos como Emanuel Mounier, com o seu personalismo, tece severas críticas à ordem social. Mounier fala de uma “desordem estabelecida”, uma desordem que é uma ordem. Trate-se de uma desordem ordenada nos diversos setores da sociedade causando um aviltamento dos valores éticos-morais, religiosos, humanos... e com isso ignorando o ser humano enquanto pessoa. Com sua crítica, Mounier conclama a humanidade que “o homem é um centro de direitos inalienáveis, intocáveis”.

    No mundo tecnificado em que os valores éticos são colocados, em uma escala axiológica, como os últimos e os valores econômicos como os primeiros, surge a necessidade de uma ética do humano. Trata-se de uma ética em que o humano seja capaz de respeitar o humano, onde “a morte do outro não é o meu alimento”. É preciso estabelecer uma ética da compaixão, pois como adverte Leonardo Boff:

“São humanos que infligem [...] flagelo a outros humanos, seus semelhantes. Não o fazem porque são perversos, mas porque aceitam passivamente as conseqüências produzidas por um tipo de relação social cuja lógica férrea de ter vantagens individuais e de acumular privadamente bens e serviços apresentam-se cruel e sem piedade”[13]. 

    Não foi só a metafísica tradicional que esqueceu o Ser, a ciência já se instaurou como paradigma dentro desse “esquecimento”. O homem foi reduzido a um mero “ente massificado”. Nesse solo, o niilismo encontrou terreno propício para desenvolver-se. O homem caiu no niilismo e no meio de uma parafernália de técnica encontra-se sem sentido existencial, perdido num mundo de coisas.

    Nietzsche em seus textos fala de um niilismo consumado. Trata-se daquele que compreendeu que o niilismo é a sua única chance. O filósofo atribui grande parte do niilismo a transvaloração dos valores. Nietzsche fala de uma moral do sacerdote, uma moral da decadência em que o homem encontra-se como coitado.

   Nietzsche tece severas críticas ao asceticismo, afirma que o ideal ascético foi senhor de toda filosofia, isso porque, a verdade foi entronizada como Ser, como Deus, como instância suprema. O filósofo ainda afirma que a ciência está longe de ser um contraposto ao ideal ascético, mas antes representa esse ideal. “É no momento a melhor aliada do ideal ascético, precisamente por ser a mais involuntária, inconsciente, secreta, subterrânea”[14].

   Em Heidegger, o niilismo se dá pela redução do ser a valor de troca. Gianni Vattimo ao comentar Nietzsche em sua obra: “O fim da Modernidade”, afirma:

“o niilismo consumado de Nietzsche também possui, fundamentalmente, esse significado; o apelo que nos fala do mundo da modernidade tardia é um apelo à despedida”[15].

    No “Crepúsculo dos Ídolos”, Nietzsche anuncia como título de um capítulo da obra: “O mundo verdadeiro tornou-se uma fábula”.

    Frente a toda essa problemática surge uma questão crucial: onde está e qual o papel da filosofia. Ainda existe a filosofia? Para quê? Qual o valor de uma filosofia especulativa? Para que a metafísica? Parece não ser esse o interesse da “modernidade”.

    Wittgenstein aparece nesse cenário e seu pensamento representa também um questionar radical da metafísica ocidental. O filósofo, já na primeira fase do seu pensamento afirma que as proposições filosóficas carecem de sentido. Ora, uma vez isso, ocorre o fim da filosofia como ciência (Tractatus 3. 332). O único sentido da filosofia é transformá-la numa atividade.

   “A finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico do pensamento. A filosofia não é teoria, mas uma atividade” (Tractatus 4. 112). A filosofia em Wittgenstein aparece apenas como uma terapêutica da linguagem. O discurso filosófico é que vai sustentar o discurso científico. Não é mais um discurso especulativo, mas tem função de análise lingüística.

    Wittgenstein conclui com seu pensamento que tudo o que se pode dizer sobre o mundo é objeto das ciências naturais, uma vez que o que se espelha na linguagem a proposição não pode representar (Tractatus 4. 121). Somente as ciências naturais podem formular claramente seus conhecimentos.

“A totalidade das proposições verdadeiras é toda a ciência natural. Tudo que pode ser em geral pensado pode ser pensado claramente. Tudo que se pode pronunciar pode-se pronunciar claramente” (Tractatus 4.111; 4. 116).

   Ora, frente a isso, Wittgenstein proclama o desaparecimento da filosofia tradicional enquanto sistema de frases absurdas, pois “a filosofia não é uma das ciências naturais” (Tractatus 4. 111).

    Mais uma vez é anunciado a morte da filosofia. Diante de tantos “anúncios” de morte poder-se-ia perguntar: Ainda existe a Filosofia? Qual o seu destino? Até o momento se pode dizer o que foi o destino da filosofia, mas prevê um futuro é arriscado. Todavia, ao se tentar uma análise da realidade atual pode-se, sem ousadia, deduzir uma direção, embora incerta, nesse caminho no qual percorreu a Filosofia.

    O mundo foi tecnificado, as sociedades apresentam-se como uma orquestra regida pelo capitalismo. O Ser foi esquecido e isso no sentido mais literal da palavra. A posse, o ter, o título marcam o valor do ser humano, ente coisificado. Frente a esse panorama, pensar não é só uma tarefa difícil e perigosa como quase impossível. O pragmatismo, o imediatismo são os medidores da ação humana. O que no passado fora um saber por excelência para os gregos, hoje incorre no sério risco de ser mais um saber pragmaticista, positivo em função da ideologia capital. O homem não só esqueceu de pensar como foi impedido disso. O lagos foi instrumentalizado – tudo é analisado pela técnica e com a técnica o mundo é desumanizado. O homem é dominado pelo niilismo e a morte parece ser seu empenho maior – ter mais sentido que a vida. Tudo passa por via capital. Nesse sentido nem mesmo a Filosofia está isenta. A pergunta é intrigante: Para que filosofar? Para que filósofo? O técnico é necessário, o filósofo não.

    Se a modernidade for medida pelo processo de ilustração, como desenvolvimento da razão enquanto pensamento – lagos originário –  então se pode anunciar também a morte ou o fim da modernidade.


A “filosofia clínica”: o anúncio do fim

    No Brasil, em que durante décadas a Filosofia foi proibida, um país em que talvez nem se possa falar de “produção filosófica”, no sentido de elaborar novas teorias filosóficas; um país em que se conta os filósofos “a dedo”, surge agora a chamada “filosofia clínica”.

    A filosofia clínica nem é filosofia, pois não é nem mesmo uma forma de saber; nem clínica, uma vez que clinicar requer uma preparação específica que inclui estudo dos fármacos, da psique,  do biológico ... não é apenas dar conselhos. A essa coisa chamada de “filosofia clínica” apenas se pode evidenciar sua própria gênese – fruto do sistema capitalista e ideológico em que a razão é razão instrumental.

    A “filósofa clínica” Mônica Aiub em um artigo publicado em um informativo do Instituto Packter em março do corrente ano, afirma:

“Se no decorrer da história da humanidade o papel do filósofo confundiu-se com o de um especulador de temas estritamente teóricos, isso ocorreu devido a uma interpretação equivocada, pois não há filosofia dissociada da vida e de suas questões práticas”.

   Todavia, não se deve confundir prática com pragmaticismo. Ter função prática a filosofia tem, o que não se pode fazer é reduzi-la a um pagmatismo extremo: “técnica para ganhar dinheiro”. No referido artigo a “filósofa clínica” comete um grave equívoco quando afirma que a “filosofia clínica” é bem-vinda à comunidade filosófica – balela!!!, pois a comunidade filosófica não vê com bons olhos essa iniciativa. A “filósofa” conclui seu artigo afirmando que as pessoas podem utilizar dessa “filosofia” para amenizar seus sofrimentos – nisso encontra-se a coerência de seu discurso com a prática que ela exerce, pois, de fato, a “filosofia clínica” parece ser apenas uma “arte do aconselhamento”, uma espécie de “filosofia” budista preocupada com a superação do sofrimento. E, para isso talvez seja suficiente apenas lê “Uma Ética para o Novo Milênio” ou “O Segredo da Felicidade” de sua santidade o Dalai Lama, por sinal, muito bons como leitura para uma sociedade niilista como a nossa!

    A “filósofa clínica” Margarida Nichele Paulo em sua obra: “Compêndio de Filosofia Clínica” apresenta um verdadeiro manual de instrução para essa prática. Afirma que: “ O objetivo da filosofia clínica (...) não é meramente racional, mas está imbuída também de emoção e intuição”[16]. Disse bem, pois, de fato, talvez seja mais uma prática do “sentimento capitalista” que da razão enquanto tal.

    É importante ressaltar ainda que, para ser “filósofo clínico” é necessário ser antes diplomado em uma faculdade brasileira, reconhecida pelo MEC. Todavia, muitos jovens estão concluindo o curso de “filosofia clínica” apenas com curso de filosofia em Instituto não reconhecido pelo MEC. Quanto à competência desses “profissionais” não vem ao caso questionar, até porque, talvez em relação a muitos nem se tenha o que questionar – a evidência é fenomenológica.

    Talvez que a afirmação de Protágoras, divulgada em um panfleto do referido curso, a de que: “O homem é a medida de todas as coisas; as que são por aquilo que são, e as que não são por aquilo que não são”, de fato, caracteriza muito bem o que seja o “filósofo clínico”.   

    A “filosofia clínica” é para aqueles que nem sequer entenderam o que é a filosofia. Heidegger afirma que ou se já está na filosofia ou não se tem como entra nela, o “filósofo clínico” é aquele que já sempre esteve fora. É o técnico com preguiça de pensar e embrenhado na ideologia capitalista. Todavia, o grande risco da Filosofia é tornar-se um saber “musáico”, reduzir-se ao já produzido, limitar-se às obras dispostas em bibliotecas, pois sem pensamento não há filosofia e o homem parece não querer pensar. Isso reflete o mais arraigado niilismo em que o homem se encontra. Contudo, como Nietzsche pregou a “vontade de potência” como superação dessa miserável condição de ser, a esperança é de que sempre haverá alguém transcendendo a si próprio, pensando e fazendo a filosofia um evento. Se todos os filósofos tornarem-se “clínicos” ou se ninguém mais se tornar filósofo a produção filosófica cessará. Todavia, nem todos chegarão a esse mais alto nível de ignorância. Queiramos que não!

   Assim, em um país que nem sequer tem uma produção filosófica, surge a oferta de um curso que parece ter a pretensão de decretar literalmente a morte da Filosofia, não mais a herdada pala tradição, mas a Filosofia originária.

   Peço desculpas aos “filósofos clínicos” se fui muito radical, mas estou apenas exercendo um direito constitucional: o de liberdade de expressão. Todavia, “amigo dos filósofos clínicos, mais ainda da Filosofia”.

 


[1] DUSSEL, Erique. O Encobrimento do Outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes,   1993,  p. 73

[2] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A Filosofia na Crise da Modernidade. 2ed. São Paulo: Loyola, 1995,  p.123

[3] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo I  9ed. Petrópolis: Vozes, 2000,  p. 220


[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A Filosofia na Crise da Modernidade. 2ed. São Paulo: Loyola, 1995, p. 128

[5] HEIDEGGER, Martin. O Fim da Filosofia – Coleção Pensadores 1ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p270

[6] Id. Ibid

[7] HEIDEGGER, Martin. O que é isto – a Filosofia? – Coleção Pensadores 1ed. São Paulo: Abril  Cultural, 1973, p 220

[8] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A Filosofia na Crise da Modernidade. 2ed. São Paulo: Loyola, 1995, p. 128

[9] Id. Ibid.

[10] Id. Ibid. p. 133

[11] MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1999, p.232

[12] Id. Ibid. p.233

[13] BOFF, Leonardo. Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Brasília: Letraviva, 2000,  p.121

[14] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.143

[15] VATTIMO, Gianni. O Fim da Modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p.15

[16] PAULO, Margarida Nichele. Compêndio de Filosofia Clínica. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2001, p.19


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