sábado, 5 de maio de 2012

MORRER PARA AMAR



Atualmente, continua se intensificando, na linguagem do cotidiano das pessoas, a banalização da palavra “amor”. Muitos proferem perante outra pessoa a declaração: “Eu (te) amo!”, no entanto estes podem não estar dando um profundo e autêntico significado a esta palavra tão fundante para o ser humano, dado que, se digo que amar alguém se adequa a alguma paixão que me faça possuir e utilizar a pessoa como meio, para que eu obtenha prazer ou qualquer outro fim, então este conceito está reduzido à inautenticidade, pela ignorância.
Quando o cristianismo introduziu no pensamento ocidental o conceito de ágape, para o amor, tal religião nos legou o máximo que esta palavra pode significar, o máximo que esta palavra pode trazer à luz do genuíno desenvolvimento do amor na ética humana, perante as demais pessoas. Assim, essa herança cristã, ultrapassa – no sentido de perfeição – as modalidades: eros e philia, que a cultura clássica atribuiu a este sentimento axial nas existência e essência, humanas; como salientou Bento XVI, em “Deus caritas est”(2006).
Para mais nos aprofundarmos no sentido do amor, chamamos ao nosso discurso a contribuição da filósofa e mística francesa, Simone Adolphine Weil (1909 – 1943), mais precisamente no seu livro “A gravidade e a Graça”. Neste, Simone Weil escreve: “Amar a verdade significa suportar o vazio e, consequentemente, aceitar a morte. A verdade está ao lado da morte” (p.12), e também: “Só se possui aquilo a que se renuncia. Aquilo a que não se renuncia nos escapa. Neste sentido, não se pode possuir seja o que for sem passar por Deus” (p.35).
A importância do binômio morte-renúncia numa ética do amor dá-se no fato de aceitar a mortalidade humana, olhando o outro como pessoal dom de Deus, e portar-se consoante essa dignidade de ser humano. Assim, o amor verdadeiro se comprova nos momentos de aniquilação do ego e quando foge o prazer; aquele que suporta o vazio da não retribuição e permanece ao lado da pessoa amada nos momentos de dor e dificuldade, ou mesmo, sacrifica-se a si mesmo pelo bem da pessoa a quem ama, este ama com autenticidade: isto é ágape; somente nesta senda o ser humano passa da sua peculiar mortalidade para a eternidade de Deus. É nesse sentido que é preciso morrer para amar, em contrário, está-se vivenciando qualquer sentimento ou concupiscência, porém nunca o genuíno amor.

REFERÊNCIAS
BENTO XVI. Deus caritas est: carta encíclica. São Paulo: Paulinas, 2006.
WEIL, Simone. A gravidade e a graça. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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