sábado, 5 de maio de 2012

ANTÍGONA DE SÓFOCLES



1 INTRODUÇÃO

 A obra Antígona é tragédia marcante de Sófocles; legado da Grécia Clássica que vem suscitando a experiência estética até nossos dias.
 Perante esta "coluna robusta" da história da dramaturgia ocidental, almejamos especular sobre a mesma, partindo da concepção aristotélica de tragédia, seguida por ênfase em Sófocles e seu contexto, dentro de um panorama sintético da obra, com reflexão sobre a temática da mesma, onde sondaremos os personagens da trama e enfocaremos partes da obra que entram em sintonia com os escritos aristotélicos sobre tragédia.

 2 O CONCEITO DE TRAGÉDIA PARA ARISTÓTELES

 A Poética, de Aristóteles, lega-nos os estudos do pensador estagiríta a respeito dos gêneros dramáticos: tragédia, comédia e epopeia, como imitação de ações humanas, grafadas em linguagem de poesia. Neste sentido aristotélico, como enfatiza Benedito Nunes, a tragédia se ocupa de ações de homens, bons e nobres; a comédia, da ação de homens maus e vis; e a epopeia consiste numa narrativa de feitos históricos.
 A tragédia possui finalidade moral ao transmitir determinada mensagem educativa, mediante a catarse (purificação de sentimentos), que suscita em seu público, pois, "A tragédia, imitação de uma ação completa, acabada, necessita de caracteres: representa o essencial do destino humano naquilo que tem de grande, nobre e exemplar. O seu efeito estético, a catarse (Katharsis), mostra-nos que essa representação exemplar estende sua influência ao plano moral da vida". (NUNES, 1991, p.28).
 Assim, na compreensão do filósofo em questão, o gênero trágico caracteriza-se por ser "imitação em verso de homens superiores", com extensão apresentada, compreendendo uma revolução solar. Sua linguagem é adornada e manifesta-se pelo caráter e pelas ideias, afinal: "A tragédia é a representação de uma ação elevada, de alguma extinção e completa, em linguagem adornada, distribuídos os adornos por todas as partes, com atores atuando e não narrando; e que, despertando a piedade e temor, tem por resultado a catarse das emoções". (ARISTÓTELES, 1999, p.43).

 A respeito da catarse, comenta Nunes, que esta constitui um efeito peculiar ao drama trágico, sendo purificação, ou neutralização dos sentimentos de temor e comiseração que o mesmo espetáculo produz no público. Catarse diz respeito a um deleite de ordem intelectual com resultado moral de receio prudente ou simpatia. Dando-lhe um enfoque kantiano, estabelecemos ligação com a relação entre as faculdades da sensibilidade e do entendimento, presentes em cada ser humano, mediante a experiência estética, dada à sensibilidade, no entanto, resultando em efeitos morais, no campo do entendimento.
 Ainda para Aristóteles, a qualidade da tragédia é constituída por seis elementos, a saber: fábula, caracteres, falas, ideias, espetáculo e canto. Além disso, o drama trágico é composto pelas seguintes partes: prólogo, párodo, episódios, estásimos e êxodo.

 3 SÓFOCLES E SEU CONTEXTO

 No contexto da Grécia Clássica, conforme o historiador Cláudio Vicentino, o teatro era acessível a toda a população, já que era representado ao ar livre. As máscaras possuíam grande relevância, pois indicavam o gênero do drama, além do mais, só os homens encenavam, inclusive os papeis femininos. O papel do coro, além do canto, também consistia na dança, que os distinguia como característicos da dramaturgia da época. A fundação do gênero trágico é atribuída ao dramaturgo Ésquilo. Os festivais de teatro, na Grécia, eram marcados por concursos que conferiam fama aos vencedores.
 Enfatiza, sobre Sófocles, Pereira Fialho, que a obra Antígona se coloca no meio da produção deste tragediógrafo, sendo esta em média de cento e vinte peças. Natural de Colono, Sófocles conseguiu sua primeira vitória, inclusive sobre Ésquilo, no festival de 468 a.C e, conforme Aristófanes de Bizâncio, nosso autor, em plena glória da fama, recebeu o encargo de estratego, em Samos. O ano mais provável para a publicação de Antígona, para Schwinge, Lesky, Pohlens e Kamerbeek, seria em 442 a. C. Além de Antígona, Sófocles escreveu as peças: Ajax, Édipo Rei, Electra, Filoctetes e, Édipo em Colono. Sua morte ocorreu em 406 a. C, na Ática.

 4 VISÃO PANORÂMICA DA OBRA

 Antígona, bem como seus irmãos, Ismênia, Etéocles e Polinices, constituem prole do matrimônio incestuoso entre Édipo e sua mãe, Jocasta. Cumprindo a maldição de Édipo, seus filhos, Etéocles e Polinices, guerrearam pelo trono tebano, estando Etéocles na condição de rei e Polínices, reivindicando o trono, aliado a Argos, fazendo guerra contra Tebas. Estes irmãos findaram suas vidas num mútuo fratricídio. Creonte, irmão de Jocasta, assume o trono e legisla a proibição de dar honras e sepultar o corpo de Polínices, por ter se voltado contra Tebas.
 No prólogo, Antígona dialoga com Ismênia, mas, em vão, tenta convencê-la a enfrentar a legislação real, e só, cumpre os ritos fúnebres sobre o cadáver de seu irmão Polinices, faz assim, motivada pelos laços sanguíneos e, por ser este um costume piedoso e sagrado, baseado na tradição familiar e de agrado aos deuses, desse modo, constrange a lei de Creonte, que determina sua prisão e a pena capital de condenação à morte, trancafiada viva no túmulo de sua família. Seu noivo, Hêmon, filho de Creonte, dialoga com seu pai, tentando, mas em vão, persuadi-lo para que volte atrás nessa decisão. Tirésias dialoga com Creonte, acusando-o de impiedade, de poluição de Tebas e da ira dos deuses que logo se vingariam na sua prole. Aconselhado pelo coro, Creonte arrepende-se, procede pessoalmente os ritos funerais sobre o cadáver, dilacerado por cães e aves, de Polínices, no entanto ao chegar ao túmulo de Antígona para libertá-la, esta já havia se enforcado. Hêmon suicida-se com sua espada, perante o corpo sem vida de sua amada. Quando Creonte retorna ao palácio com o corpo de Hêmon, recebe a notícia que sua esposa, Eurídice, também se suicidara, logo que os guardas lhe noticiaram a morte de seu filho. Creonte é condenado a continuar, conforme o conselho do coro e cumprir com o dever sagrado de sepultar ritualmente esses mortos.

 5 TEMÁTICA

 Essa questão vem sendo, ao correr da história, alvo da crítica filosófica e hermenêutica. As discussões polarizam-se em torno da política e das legislações de matrizes, natural ou positiva e a própria questão religiosa. A interpretação de Georg W. F. Hegel é muito recorrida nos comentadores, como a mais famosa; Gilda Maciel de Barros a enfatiza:
 "A interpretação mais conhecida e citada [...] é a de Hegel, para quem, nessa peça,  opõem-se o interesse familiar, na figura de Antígona e, na de Creonte, a prosperidade comunitária. O bem público remeteria ao decreto do rei; a inumação se justificaria por um dever sagrado, fruto da piedade amorosa e fraterna, do temor respeitoso aos deuses ínferos". (In: http://www.hottopos.com/videtur25/gilda.htm. Acesso em 20 fev. 2011)
 Entre outras interpretações recorrentes, R. Bultmann escreveu que o problema do drama constitui na busca pelo verdadeiro fundamento para a vida comunitária dos seres humanos e, por conseguinte, para sua vida política. Porém, Knox acentua que a discussão de Antígona se refere ao conflito entre as esferas vitais, constituídas pela família e pela cidade-estado.
 Antígona representa a Lei natural, baseada na transmissão tradicional, ao passo que Creonte, representa a Lei positiva. Daí, questionamos: afinal, nessa obra, qual destas duas esferas predomina? Lei natural, conforme a religião e a tradição familiar, ou a Lei positiva, baseada no absolutismo político de um governante?

 6 PERSONAGENS RELEVANTES

 Damos ênfase, prosseguindo nossa abordagem, aos seguintes personagens: Creonte, Antígona, Ismênia, Tirésias, Hêmon, Eurídice, Coro e Guardas.
 6.1 Creonte: representa o tirano movido pelo ódio vingativo e a altivez pessoal que se determina politicamente como rei absoluto, opondo-se à democracia tebana, respaldando-se no seu poder e na Lei positiva. Acaba por ser punido pelo destino, que é manifestação do poder dos deuses.
 6.2 Antígona: é a princesa inflexível que se respalda na tradição familiar e na piedade religiosa. Convicta das desgraças do destino que atingiram sua família, não teme as forças divinas, portanto, enfrenta a impiedade de Creonte e sua legislação e, livremente, abraça seu destino mórbido.
 6.3 Ismênia: representa a princesa recatada conforme as normas legislativas, no entanto, esta não se atreve a enfrentar o poder das divindades. Sendo flexível num primeiro momento, aceitando a lei de Creonte, logo se arrepende e tenta participar da pena de sua irmã, que não aceita seu pseudo-envolvimento. Ismênia escapa da pena mortal, através do conselho do coro, que persuade o tirano Creonte
 6.4 Tirésias: é o representante da esfera divina e, por isso, encarna a consciência religiosa de Creonte, podendo censurá-lo por sua impiedade que macula Tebas; por sua condição profético-sacerdotal não aparece sujeito ao poder do tirano, mas o interpela e censura por seu dever para com a religião e a tradição.
 6.5 Hêmon: o descendente do rei que busca, primeiramente, fazer seu pai voltar na decisão de penalizar com a morte sua noiva Antígona, por meio da persuasão lógica, porém, vendo-se sem êxito nesta tentativa racional, entrega-se aos sentimentos e acaba por suicidar-se perante a morte de sua noiva.
 6.6 Eurídice: é mais mãe de Hêmon que esposa de Creonte, na medida do amor. Ao saber da desgraça mortal ocorrida com o suicídio de seu filho, encerra suas motivações para existir e, também se suicida. Segue seu filho Hêmon, rumo ao ínferos.
 6.7 Coro: dialoga com personagens da trama e também representa a consciência religiosa de Creonte, evoluindo de uma atitude passiva para com as determinações de Creonte, até censurá-lo, e aconselha-o a agir conforme a piedade para com as normas agradáveis à divindade. Representa a assembleia dos cidadãos, que guardam a memória e aconselha a realeza.
 6.8 Guardas: São extremamente dependentes de Creonte, por temor. Executam as ordens do tirano, aprisionam Antígona e a trancafiam no sepulcro de sua família. Também comentam entre si os acontecimentos ocorridos em Tebas, como as mortes, de Hêmon e, posteriormente, de Eurídice

 7 PONTOS TANGENTES ENTRE A OBRA E A NOÇÃO ARISTOTÉLICA DE TRAGÉDIA

 O ponto comunal, mais precisamente, é quanto à participação do coro que, na obra, bem como nos demais dramas de Sófocles, interage com os personagens. Sobre essa peculiaridade, expressou Aristóteles (1999, p.60): "Também o coro deve ser considerado personagem, integrado ao todo e à ação; não à maneira de Eurípides, mas à de Sófocles".
 Quanto ao conceito aristotélico de tragédia, que já temos citado, a obra Antígona comunga piamente, já que a obra trata de ações elevadas, a linguagem é bem trabalhada, em versos e tem finalidade moral, mediante o suscitar da catarse das emoções em seu público.
 Outro depoimento aristotélico sobre o gênero trágico que bem se coaduna com o drama em questão consiste em que:
 "A tragédia [...], não é apenas a imitação de uma ação completa; também relata casos que inspiram horror e pena, emoções que surgem, em especial, quando as ações são inesperadas, em caso assim, o espanto é maior que nos eventos provocados pelo acaso e pela fortuna". (ARISTÓTELES, 1999, p.48).
 A surpresa dá-se pela morte não pressagiada da rainha Eurídice. Também enfatizamos que o destino de Creonte, que deve permanecer vivo para não contrariar o destino, também é surpresa, numa lógica em que a morte havia fechado o cerco em torno dele.
 Quanto à estrutura da peça, escreve Pereira Fialho (1997, p.11): "A tragédia é composta pelas partes que Aristóteles viria a definir na Poética 1452b: prólogo, pádoro, episódios e estásimos são em número de cinco, tendo o quarto episódio a forma de lamentação ou Kommos, também referida na enumeração da Poética".
Essa obra precede, cronologicamente, a Poética de Aristóteles, que tomou conhecimento da produção sofocliana. Não são estranhos pontos em comum, entre a peça em questão e a conceituação da tragédia por Aristóteles.

 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 Do que expomos, acentua-se que a produção mimética a serviço da experiência estética e da catarse é ótima quando suscita atitudes de disposição à virtude, mediante a purificação de sentimentos que levam à reflexão, que por sua vez almejará a virtude. Daí uma arte que não suscite essa catarse, acompanhada de reflexão moral, pode ser chamada de técnica sem finalidade elevada, quanto à moral? Baseado nesta tragédia, como pensar uma harmonia que priorize, de maneira conjunta, a lei natural de caráter religioso e a política respaldada em normas positivas, em nosso mundo atual?



 REFERÊNCIAS
 ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.33-75. (Col. Os Pensadores)
 MACIEL DE BARROS, Gilda Naécia. Antígona: o crime santo, a piedade ímpia. In: http://www.hottopos.com/videtur25/gilda.htm. Acesso em 20 fev. 2011).
 NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. 3. Ed. São Paulo: Ática, 1991.
 PEREIRA FIALHO, Maria H. da Rocha. Introdução. In: Sófocles. Antígona. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1997, p.7-25.
 SÓFOCLES. Antígona. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1997.
 VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Scipione, 1997.

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