segunda-feira, 28 de maio de 2012

Maria de Nazaré


No corpo escriturístico judaico-cristão, sobressaem-se várias personalidades femininas, que deram seu contributo pessoal na história da salvação. São mulheres como Sara, Raquel, Rute, Judite, Ester, Isabel, Marta, Madalena, entre outras, que se destacam pela beleza das virtudes, temor de Deus, sensibilidade feminina, esponsalidade e maternidade. No entanto, enfatizamos, coerentemente, com a nossa fé, a mulher Maria de Nazaré, mãe de Jesus Cristo, essa que se desvela para nós como a mulher por excelência.
 A beleza das virtudes, em Maria, mostra-se na declaração do Arcanjo Gabriel: "Alegra-te, cheia de graça! O Senhor é Contigo!"(Lucas 1,28). De fato, não é uma beleza tanto proveniente da meiguice ou formosura da Virgem, no entanto tal estética brota numa mulher eleita, toda repleta da graça advinda do Ser divino, que habita o coração desta moça de Nazaré; portanto, uma mulher adornada de virtudes.
 A presença de Maria é a autenticidade presencial de uma mulher extremamente singular no grau do temor de Deus. É nesta lógica que ela se declara "a serva do Senhor"(Lucas 1,38), colocando-se em uma atitude voluntária de pessoa que acolhe e se conforma ao projeto do Pai. Maria é uma pessoa humana que, em todo o seu ser, é respeito e exultação perante o mistério de Deus; ela triunfa de alegria perante a irrupção da salvação na história humana, pela encarnação do "Inominável-transcendente" na imanência do seu ventre.
 Na expressão mariana "Eles não têm mais vinho" (João 2,3), contextualizada na festa de casamento em Caná, da Galiléia, a sensibilidade feminina, em Maria, manifesta-se como uma empatia caritativa para com as outras pessoas humanas, no caso, os noivos. Uma intuição peculiar que aponta os caminhos da realização humana, fazendo a diferença por não omitir sua valorosa atuação.
 O dom do amor, refletindo a fidelidade esponsal de Maria, salienta-se na sua maternidade, enquanto mãe cheia de amor e responsabilidade para com Jesus, o bendito fruto do seu ventre, a quem, quando recém-nascido, ela amamenta e envolve em paninhos, preocupando-se com ele, quando fica no templo com os doutores e na suas peregrinações missionárias, inclusive, acompanhando seu mistério pascal, partilhando da dor de seu filho ao pé da cruz, aí onde sua maternidade se expande, por solicitude de seu crucificado filho, abraçando com ternura o discípulo amado, bem como toda a comunidade dos discípulos de Jesus.
 Então, Maria é a mulher mais esplendorosa da Escritura Sagrada, da história da salvação, é ela a "mulher vestida de sol" (Apocalipse 12,1); pois, dentre tantas estrelas, nela refulge a beleza das virtudes, o temor de Deus, a sensibilidade feminina e a esponsalidade materna. Em Maria, as virtudes de todas as personalidades femininas da História da salvação encontram sua perfeição e culminância, a ponto de considerarmos Maria o modelo de perfeição para todas as mulheres que se deixam iluminar pela Palavra de Deus.

REFERÊNCIAS
BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
CATECISMO da Igreja Católica. 9.ed. São Paulo: Loyola, 2004.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A RELIGIÃO NO MUNDO PÓS-MODERNO

     
    

Marcada pela estética, a religião no mundo pós-moderno quer atender à necessidade antropológico-tecnicista de vivenciar o clímax de uma sensação transcendente, que signifique a irrupção da esfera divina na existência humana. A estética, ou dimensão da beleza, faz-se um imperativo no culto, se este objetar a eficácia no anúncio do mistério que irrompe da ausência e se faz presente com o homem-religioso no tempo sagrado. Nesta trilha, já afirmou João Mohana (1995, p.90): “Já gastamos séculos contentando-nos em refletir sobre Deus como Verdade. É preciso agora integrar o sentido da Beleza no relacionamento com Deus”.
Divergente de uma vivência religiosa fadada a desmitologização laica, como prenunciou Peter Berger (1985, p.119), ao expressar o conceito de secularização: “Por secularização entendemos o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos”. A secularização afigura-se como fim de uma religião racionalizada instaurada na modernidade; daí, a dimensão religiosa da pessoa humana emerge na contemporaneidade como grito premente de satisfação de necessidades vitais ligadas ao setor sentimental, que fora tolhido no advento da razão, ciência e técnica; tal busca de satisfação segue um estilo de liberdade consumista, sob a égide mercadológica. As relações com a divindade assumem, nesta linha, o caráter de uma transação comercial e do bem estar como bênção; o que embasa a corrente teológica da “Prosperidade”.

Dado que a “democrática” autonomia do ser humano atual, dá-se no ter liberdade e condições de consumir, a fim de alcançar o bem-estar, a ética religiosa, nesta esteira, não é amistosa para com o imperativo categórico universalizante, de o inexorável dever, kantiano:
O princípio da autonomia é, portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal. Que esta regra prática seja um imperativo [...] pois esta proposição sintética que ordena apoditicamente, tem que poder reconhecer-se inteiramente, a priori. (KANT, 1995, p.85).
Porém, a moral do homem contemporâneo acontece na liberdade da construção de valores individualistas.
Neste sentido, a ideia da paz, como valor-telos religioso não é mais vista como extensiva às esferas da política e do diálogo, no entanto, a paz passa a ser vista como um estado de espírito do ser humano individual que está conectado com o ser absoluto, este Ser que, em um tempo advêm ao encontro do homem e, em outro tempo, esconde-se; portando, uma divindade que abençoa e amaldiçoa, consoante as ofertas que o homem religioso lhe rende ou lhe recusa. “Cada celebração vale por si mesma. Cada experiência religiosa carrega dose de alegria e prazer. Com esses retalhos de gozo se confeccionam as vestes religiosas do momento” (LIBÂNIO, 2009, p.114).
A dimensão “mundo virtual” invade a religiosidade, seja nas suas propriedades de movimento e detalhismo, como nas perspectivas que detém a atenção e racionalidade da pessoa humana em suspenso, cativando-a pelo bem estar da sensação. “Os meios de comunicação físicos e virtuais fazem circular por todas as partes diversidade de propostas políticas, culturais, experienciais. A religião se torna verdadeiro laboratório de experimentação de ingredientes espirituais” (Idem, ibidem, p.117). Há uma correspondência estética de permuta entre virtualidade e espaço sagrado, que se invadem reciprocamente.
Desse modo, o homem pós-moderno configura-se como um ser religioso que se vê num processo de autodivinização. Seria esta a busca pelo tornar-se o “super-homem” nietzschiano?

REFERÊNCIAS:
BARTH, Wilmar Luiz. O homem pós-moderno, religião e ética. Teocomunicação, Porto Alegre, v.37, n.155, p. 89-108, mar. 2007.
BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião: São Paulo: Paulinas, 1985.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 1995.
LIBÂNIO, J. Batista. Caminhos de existência. São Paulo: Paulus, 2009.
MOHANA, João. A vida afetiva dos que não se casam. 2.ed. São Paulo: Loyola, 1995.
ZEPEDA, José de J. Legorreta. Secularização ou ressacralização? O debate sociológico contemporâneo sobre a teoria da secularização. RBCS, São Paulo, v.25, n.73, p.129-141, jun.2010.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A MUSA E A POESIA – Por : Enderson Pereira




      Se me perguntassem o que eu sinto por ela, eu não saberia explicar. Pois, é algo que se tornou tão forte em minh’alma que nem mesmo o número de estrelas que existem no firmamento do céu, nem todos os dialetos que há no mundo, nem a imensidão do mar, nem o mais belo poema já escrito por um poeta, seriam capazes de descrevê-lo ou de entendê-lo. Destarte, não é algo que eu possa dizer: ‘agora não quero mais!’. E ele desaparece. Não sei se é só paixão, posto que, só o amor dura para sempre. E, se for amor, que seja chama divina, a qual não se consome e não tem fim!



A mais bela entre as Musas gregas!
Nítido olhar de uma deusa do amor
Arrastando-me e envolvendo-me!



Canções não chegam a explicá-la,
A poesia também não.
Raro corpo composto de sensibilidade!
Oh, Eros! Nem mesmo o que nela é sensível,
Legado que, o sensível é reflexo da ideia,
Instiga-me a não acreditar que ela é perfeita!
Notado que, ela é reflexo de sua alma
E essa, por essência, está ligada à verdade, ao belo e ao bom.


Disponível em: http://www.webartigos.com/artigos/a-musa-e-a-poesia/79647/

A MÚSICA NA IGREJA - Por: Romário Avelino. OFMconv


     
     Ao falarmos em música, nos vem à cabeça algo que gostamos de ouvir e sentir em nosso interior que nos faz bem e nos ajuda a relaxar melhor. A música pode ser entendida como um conjunto de sons agradáveis ao ouvido. A palavra "mousiké" ( musica) propriamente dita foram os gregos que criaram e significa arte das musas que segundo a mitologia eram nove deusas responsáveis pela inspiração dos poetas e compositores. Ela é linguagem que expressa à vida humana em várias dimensões: psicologia, social, cultural, etc.
       Dentro do âmbito religioso, a música é muito importante, pois desempenha um papel de grande valor. Ela esta presente em todos os tipos de rituais religiosos. Um bom exemplo são as religiões de matriz africana, onde os sons dos tambores embalam seus fieis no ritual deixando-os em estado de êxtase profundo.  Já na Igreja Católica, vemos que a musica também ocupa um lugar de destaque dentro de sua liturgia. Ela não ofusca a pessoa de Jesus Cristo que é o centro de toda a ação litúrgica, mas sim ajuda a assembleia a penetrar no mistério da fé por meio de sua harmonia. Sua importância se dá desde os primórdios do cristianismo e ate mesmo antes dele.
        Dentro da liturgia cristã, a música no ritual expressa a fé herdada do povo da primeira aliança. Ela busca unir em um só corpo e um só espírito toda a assembleia, num louvor ao Deus todo poderoso, introduzindo-a no tempo litúrgico nas festas e solenidades.
        Na Sagrada Escritura temos vários exemplos de expressões de agradecimento ao Senhor por meio da musica. O salmista pede ao povo que louve ao Senhor em toda a parte da terra (Sal. 148), o povo que canta agradecendo a Deus a ajuda e a libertação das mãos do faraó (Ex. 15), Maria que dá glorias a Deus por trazer em seu ventre o Salvador do mundo (Luc.1, 46). 
         O Concilio Vaticano II, em sua constituição Sacrosanctum Concilium nos diz que “a música contribui de forma considerável na vivencia da fé. Ela conduz à centralidade do mistério celebrado, a partir do tríplice serviço: assembleia, ritos, palavra de Deus.” (SC 118). Ninguém esta ali para tocar ou cantar para o povo, mas sim com o povo que unido dá a Deus o louvor por tantas graças recebidas.  Por isso a ação litúrgica ganha em nobreza quando o serviço divino se celebra com solenidade e é cantado pelo povo que dele participa. (SC 113). Quem canta reza duas vezes. Cantar para Deus é elevar a alma às alturas em um louvor universal e de coração, que tesouro algum se iguala em valor e grandeza. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

As asas da borboleta



Dois de julho de dois mil e dois.
Despontando o luzente sol bragantino acordo atordoado, ando pelos corredores do hotel dirigi-me ao jardim e, sento-me no meu mais preferido banco azul, sob a sombra de uma frondosa mangueira, a fim de contemplar a novidade do meu primeiro dia de férias.
Em meio ao colorido "tornar do desmaio" do ambiente, deparo-me com um fenômeno simples e singular numa das colunas do velho coreto: o nascer de uma borboleta.
Observo atento, mergulhado na solidão do silêncio matutino, aprecio a novinha borboleta com esquisito corpo avermelhado, "pernas" finas e negras; mas realmente interessante é a contemplação de suas asas, asas escuras que exprimem a arte do criador.
Vislumbro em perfeitas e frágeis asas do dito inseto a estética de formas geométricas, azuladas, amareladas e alvas; pequenos, triângulos, retas, pontos e espirais; como uma arte tribal, comparável à arte marajoara.
Tal lepidóptero se move na coluna arcaico-embranquecida, segue os primeiros passos de sua dinâmica vital, integrando-se ativamente na biosfera. Movimenta-se o "artístico inseto", deixando para trás seu horrível casulo- que outrora fora seu invólucro, sua prisão-sepulcro da valha lagarta. A pequena borboleta se distancia mais de dois palmos do "casulo rasgado", estremece suas quatro asas matizadas e membranosas, arriscando com certo estremecimento o rumo do voo livre.

 


Cuidar da cidade

(Imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9f/Bel%C3%A9m_Brazil_panorama_01.jpg)


  

Pessoas poluem a cidade porque não possuem a moral do cuidado público como valor, porém, como dever. Dado que não se concebem como responsáveis pelo zelo e urbanização da cidade; ignoram a relação de causalidade entre poluição e futuros prejuízos à "urbe" e aos seus habitantes; bem como, estão presas a uma ética do inexorável dever, não transitando para uma moral valorativa, que se nos afigura mais eficaz.
A mentalidade popular, de isenção do cuidado pelo espaço urbano, provém da concepção que tal responsabilidade é restrita aos administradores públicos, que devem garantir o saneamento e manutenção deste espaço. Por isso, não são fenômenos estranhos encontrar pessoas poluindo o espaço em questão, aqui enfatizamos o descarte de materiais inorgânicos nas sarjetas, córregos, ruas praças etc., sem esquecermos as poluições aérea, sonora, visual e química, muito frequentes na urbe. Esses poluidores agem destrutivamente, já que delegam a total responsabilidade pelo ambiente urbano para os seus administradores, tomando uma aparência de neutralidade na esfera política.
Ademais, afigura-nos que estes poluidores desconhecem a causalidade entre sua poluição na cidade e seus efeitos nefastos, que os mesmos sofrerão com os demais cidadãos. Por exemplo, os detritos, jogados nas sarjetas e córregos, obstruem os bueiros, contribuindo para alagamentos em períodos de chuva intensa.
Além disso, o comportamento dos agentes poluidores se evidencia como postura consequente da ética do dever pelo dever (Kant), que os leva a agir mal para com o zelo público, desde que esta atuação não lhes acarrete algum prejuízo imediato, como a má fama. Esses agentes poluidores não se vinculam à ética do valor (Max Scheler), que, em nosso caso, implicaria o zelo público centrado no cuidado pelos outros, sem que seja praticado por medo de algum prejuízo advindo de não o praticar.
Portanto, estando fundamentada a ideia de que a atitude de poluir o espaço público é consequência de uma moral da obrigatoriedade e, não, do valor, para que alcancemos uma moral cidadã, centrada no cuidado pelos bens públicos, com atos eficazes, faz-se necessário erigir, para todos os cidadãos, uma educação moral, axiologicamente radicada, em detrimento do constrangimento, pois cuidar da cidade com eficácia requer um afeto pessoal dos citadinos para com o local público e para com as demais pessoas.

REFERÊNCIAS
ROVIGHI, Sofia Vanni. Husserl e a fenomenologia. In: _______. História da Filosofia Contemporânea: do século XIX à neoescolástica. [Trad.: Ana P. Capovilla]. São Paulo: Loyola, 1999, p.359-395.
WOJTYLA, Karol. Max Scheler e a ética cristã. [Trad.: Diva T. Pisa]. Curitiba: Champagnat, 1993.